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Marcia Hirota: Zerar o desmatamento na Mata Atlântica é possível

Menor índice registrado desde 1985 traz esperança

No último ano foram desmatados 125 km2 de Mata Atlântica. Não é pouca coisa. Perdemos, a cada hora, uma área de floresta equivalente a 1,5 campo de futebol. Para esse bioma que já teve quase 90% de sua mata original devastada, cada quilômetro quadrado conta muito.

Por outro lado, esse foi o menor desmatamento registrado desde 1985, quando iniciamos o monitoramento do bioma, divulgado a partir de 1992 —o que também não é pouca coisa.

Quando lançamos o Atlas da Mata Atlântica, em parceria com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a floresta era desmatada na velocidade de 12 campos de futebol por hora.

A queda abrupta no índice de desmatamento indica que alguns investimentos para coibir as ameaças ao bioma começam a apresentar seus primeiros resultados. São novas iniciativas e tecnologias que permitem maior controle e fiscalização, por satélite ou em campo; autuação de desmatamentos ilegais; moratórias que suspendem temporariamente a supressão de vegetação; criação e manutenção de áreas protegidas públicas e privadas; e até mesmo benefícios para proprietários privados que conservam a vegetação nativa.

Indica também que a recessão econômica do último ano provavelmente teve seus impactos na retração das investidas sobre a floresta, apesar de não termos dados consolidados para confirmar tal hipótese. Mas isso mostra, acima de tudo, que frear o desmatamento na Mata Atlântica é possível —especialmente o ilegal— e que nossa meta de alcançar o desmatamento zero até 2022 é factível.

Dos 17 estados do bioma, sete já estão no nível do desmatamento zero --quando os desflorestamentos ficam em torno de 1 km2. São eles: Ceará, Espírito Santo, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e São Paulo. Os outros dez continuam com registros inaceitáveis, mas todos com queda em relação ao último ano.

Em um momento político e eleitoral importante para o país, a Mata Atlântica dá o seu recado. E em tempos polarizados como o que vivemos, de pouco diálogo e muito pessimismo, uma notícia positiva como essa é muito bem-vinda. Há oportunidades reais de mudança, desde que para isso haja muita responsabilidade, compromisso coletivo e objetivos em comum.

O fim do desmatamento da Mata Atlântica constitui um esforço que inclui sociedade civil, academia, proprietários de terras, governos e empresas. Passa também pelo respeito às leis ambientais, como o Código Florestal e a Lei da Mata Atlântica, que muitos setores buscam flexibilizar.

Quando começamos o nosso trabalho, há mais de 30 anos, o tempo era outro. Vivíamos um período de abertura política e acompanhamos os primeiros anos de uma Constituição Federal que trazia um capítulo sobre meio ambiente considerado até pouco tempo atrás um dos mais modernos do mundo. Hoje, o cenário é de incertezas e o ritmo, de retrocessos.

A redução do desmatamento no último ano nos traz uma mensagem de esperança. Mudar a realidade da Mata Atlântica nos dá a certeza de que é possível mudar a realidade do país. E para melhor.

Marcia Hirota

Ambientalista e diretora-executiva da Fundação SOS Mata Atlântica

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