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Edson Franco: Desinformação embaralha debate sobre Previdência

Maioria não vê que sistema atual é insustentável

O presidente da FenaPrevi, Edson Franco, em entrevista à Folha em 2017
O presidente da FenaPrevi, Edson Franco, em entrevista à Folha em 2017 - Danilo Verpa - 3.mar.17/Folhapress

Um dos temas mais espinhosos da agenda do governo que assumirá o comando do país no ano que vem, a reforma da Previdência segue enfrentando o desafio da informação. A maioria dos brasileiros ainda não se deu conta de que o sistema caminha para o colapso, de que o modelo de aposentadorias tal como está estruturado inviabiliza o reequilíbrio das contas públicas e que o adiamento da solução só tornará o problema maior e mais difícil de resolver.

Pesquisa realizada pela FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida), em conjunto com o instituto Ipsos, revelou um quadro preocupante quanto ao entendimento dos brasileiros sobre o tema.

Apesar da intensificação do debate desde o ano passado e de toda a informação disponível sobre os sucessivos déficits da Previdência, 51% continuam acreditando que o sistema seja sustentável e só 28% declaram compreender que os desequilíbrios das contas têm origem no modelo atual de aposentadorias e no rápido envelhecimento da população.

Com o perdão do pleonasmo, o sistema previdenciário brasileiro não somente é como está se tornando cada vez mais insustentável. Só no ano passado as contas da Previdência amargaram déficit de R$ 268 bilhões, somadas as despesas do regime geral do INSS e dos servidores públicos da União. Em 2016, o déficit do sistema representava 8,2% do PIB e chegará a 17% em 2060, segundo projeções da OCDE.

Hoje o ajuste ainda pode ser feito respeitando direitos adquiridos, mas, se as providências não forem tomadas logo, é possível que no futuro próximo o Estado enfrente sérias dificuldades para honrar até mesmo o pagamento das aposentadorias já concedidas.

Mesmo assim, 76% dos brasileiros, segundo a pesquisa FenaPrevi-Ipsos, declaram que dependerão exclusivamente da Previdência Social na aposentadoria. E 48% planejam se aposentar antes dos 60 anos, expectativa irrealista e em flagrante contradição com o quadro que se desenha.

Outro dado mostra que 75% dos entrevistados apontam a corrupção como principal problema nas contas do INSS. A desconfiança com a malversação de dinheiro público está tão arraigada que contamina completamente a compreensão do problema, embaralha o debate e ofusca a realidade do que está por trás da crise previdenciária do país, provocada pelo atual modelo do sistema e pela irreversível mudança demográfica em curso, com o rápido envelhecimento da população.

Mas nem tudo está perdido nesse debate. O levantamento, apesar do diagnóstico distorcido dos problemas, mostra que 43% acreditam que a Previdência Social deverá passar por alguma reforma no futuro, e 49% dizem que o tema deveria ser tratado pelo novo presidente. Eis aí uma janela de oportunidade que não deveríamos desperdiçar.

Como sabemos, o tema deve ser um tabu entre os candidatos na corrida eleitoral. Poucos se atreverão a discutir o problema para mostrar a realidade dos fatos aos brasileiros. Dizer a verdade não costuma render votos. Mas, superada a disputa, a matemática da realidade vai se impor friamente.

O novo mandatário, então, terá que travar uma batalha fenomenal contra a desinformação.
Para estabelecer uma nova agenda previdenciária, o novo governo deverá dar clareza ao tema, capitaneando um debate honesto, apartidário, baseado na realidade das contas públicas.

Deverá, sobretudo, enfrentar os interesses corporativos para assegurar uma reforma socialmente justa, combatendo os privilégios e cortando na própria carne.

Sem isso, não será possível conquistar a opinião pública e ganhar legitimidade para avançar com uma agenda de crescimento para o país.

Edson Franco

Presidente da FenaPrevi (Federação Nacional de Previdência Privada e Vida) e da Zurich Seguros no Brasil

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