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Roberto Feith: Armas para todos

Bolsonaro quer transpor para cá disfunção americana

Deputados Alberto Fraga e Jair Bolsonaro fazem sinal com as mãos imitando armas de fogo, em sessão na Câmara em 2015
Deputados Alberto Fraga e Jair Bolsonaro fazem sinal com as mãos imitando armas de fogo, em sessão na Câmara em 2015 - Alan Marques - 18.ago.15/Folhapress

Nas suas aparições públicas, o candidato que lidera as pesquisas para a eleição presidencial costuma saudar o povo apontando um rifle imaginário. Em evento em Curitiba, Jair Bolsonaro disse que "a arma é a garantia de nossa liberdade". "Da próxima vez, quero ver 200 pessoas armadas aqui dentro". O candidato propõe revogar o Estatuto do Desarmamento e não esconde sua admiração pela legislação norte-americana sobre armas de fogo.

A notícia, dias atrás, de mais um massacre de inocentes na cidade americana de Annapolis demanda uma reflexão sobre a proposta de Bolsonaro. As armas pontuam a história da nação mais rica do planeta. Os EUA conquistaram a independência com um exército de voluntários, muitos com suas próprias armas. Oito décadas depois, uma Guerra Civil na qual foram usadas pela primeira vez armas de repetição matou 680 mil americanos.

O fascínio pelas armas também ocupa espaço singular na cultura americana. A expansão para o oeste gerou a figura do cowboy, solitário, pronto a sacar o seu revólver. Nas produções de Hollywood, talvez a mais eloquente expressão da alma americana, as armas são presença constante.

Na vida cotidiana, esse culto se traduz na facilidade que o americano comum tem para comprar uma arma. Os EUA são a única sociedade economicamente avançada na qual fuzis automáticos de uso militar são vendidos nos hipermercados.

Os americanos pagam um alto preço por esse fascínio. Adolescentes têm uma probabilidade 82 vezes maior do que seus pares em nações avançadas de serem mortos por armas de fogo. Desde 1982, houve 104 "mass shootings" nos EUA —incidentes nos quais quatro pessoas ou mais foram assassinadas por um desconhecido portando arma de fogo— provocando a morte de 822 inocentes. Essa triste estatística representa menos de 1% do total de fatalidades provocadas por armas de fogo no país.

Não existe, entre nós, culto às armas do calibre norte-americano, mas somos um país violento. Em 2016, 62 mil brasileiros foram mortos por armas de fogo. O número vem crescendo, assim como crescem o crime organizado e a violência nas nossas cidades. Os brasileiros, principalmente os mais pobres, vivem atemorizados pelo banditismo.

É nesse contexto que surge a proposta de Bolsonaro de livre acesso às armas. O deputado tem razão em exigir o combate eficaz ao crime. Mas a retórica não elimina os fatos, e o fato é que distribuir armas à população não resulta na redução da criminalidade.

Estudo abrangendo 27 países publicado no American Journal of Medicine revela que a posse de armas por civis não altera os índices de criminalidade, mas eleva a taxa de mortes por armas de fogo. Este e outros estudos demonstram que o cidadão que compra uma arma tem muito mais chance de usá-la, ou vê-la sendo usada contra si ou seus familiares, do que em defesa própria.

Jair Bolsonaro poderia buscar inspiração para suas propostas em alguma característica da vida norte-americana digna da nossa admiração, tal como o respeito à meritocracia, a qualidade do ensino superior ou a incessante inovação tecnológica. Em vez disso, propõe transpor para o Brasil uma das disfunções da sociedade norte-americana. Ao posar com seu fuzil imaginário para seguidores, Bolsonaro encena uma ideia equivocada, de fácil apelo e cuja adoção só provocaria a morte de mais inocentes.

Roberto Feith

Fundador e ex-diretor da Editora Objetiva (adquirida pela Companhia das Letras em 2016), ex-correspondente da TV Globo na Europa e ex-diretor do Globo Repórter; portador de dupla cidadania, brasileira e americana

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