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Presidente minguante

Horacio Cartes incorreu em práticas que recriminava quando candidato

Horacio Cartes, que deixou a Presidência do Paraguaia
Horacio Cartes, que deixou a Presidência do Paraguaia - Eduardo Knapp - 19.fev.15/Folhapress

O empresário Horacio Cartes chegou à Presidência do Paraguai, há cinco anos, com um atraente discurso de modernização da administração pública, amparado na imagem de gestor exitoso e sem os vícios da política tradicional.

Na quarta-feira (15), ele encerrou o mandato sob baixa aprovação (18%), desgastado em larga medida pelo fato de ter incorrido em algumas das práticas que recriminava quando candidato.

Embora filiado ao Partido Colorado —força hegemônica que governou em 65 dos últimos 70 anos, incluindo uma ditadura de 35 anos—, Cartes criticava “maus costumes” da legenda, segundo ele decorrentes de muito tempo no poder.

Entretanto um dos motivos para o mandatário ter caído em descrédito foi justamente tentar prolongar sua permanência no cargo.

Em 2017, patrocinou uma manobra parlamentar no intuito de reformar a Constituição, que veta a reeleição —impedimento instituído após a queda do ditador Alfredo Stroessner, reconduzido sete vezes em eleições forjadas.

Cartes recuou, porém, ante a indignação popular, que gerou um levante nas ruas e acabou com o Congresso parcialmente incendiado. Ele ainda tentaria alterar as regras do jogo uma vez mais, em junho último, quando anunciou que renunciaria para, assim, poder ocupar uma cadeira no Senado com poder de voto.

Ex-presidentes tornam-se senadores vitalícios, mas apenas com função cerimonial. Como fora eleito a uma vaga na Casa no pleito de abril, Cartes queria exercer a legislatura plena, mas os parlamentares rejeitaram sua renúncia.

Após tanto almejar a extensão de seu protagonismo, o mandatário sai da cena política rompido com o próprio partido, a ponto de nem sequer ter comparecido à cerimônia de posse do sucessor, o também colorado Mario Abdo Benítez.

Na economia, o paraguaio deixa ao menos melhor impressão. Atraiu empresas estrangeiras, especialmente brasileiras, interessadas em incentivos fiscais e mão de obra barata. O Produto Interno Bruto tem crescido acima da média da região nos últimos anos.

Avançou-se pouco, no entanto, no combate a duas graves chagas do país: tráfico de drogas e contrabando. Sobre este, aliás, o ex-presidente sempre esquivou-se das acusações de que cigarros produzidos pela fábrica da qual ele é dono dominam o mercado ilegal brasileiro.

Com mais erros que acertos, Horacio Cartes decerto não será lembrado como o melhor presidente da história de seu país, como dizia querer quando entregasse o posto.

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