Ao gosto de Maduro

Destituição à força só alimentaria o discurso do ditador de que buscam desestabilizá-lo

Nicolás Maduro, ditador venezuelano, em Caracas
Nicolás Maduro, ditador venezuelano, em Caracas - Ariana Cubillos/Associated Press

Nem mesmo os chavistas mais empedernidos arriscam-se a eximir o regime da catástrofe social e econômica em que se encontra a Venezuela. Há poucas semanas o próprio ditador Nicolás Maduro reconheceu o fracasso do modelo, embora se anuncie capaz de reformá-lo a ponto de tirar o país da ruína.

Dados os sinais de agravamento de um quadro já calamitoso, torna-se difícil crer que este governo, por si só, desfaça todos os desarranjos que ele mesmo criou.

Há amplo consenso de que uma mudança de rumo se faz necessária em Caracas, mas mostra-se alarmante que se fale, mesmo como mera especulação, em intervenção militar como opção válida para pôr fim à agonia imposta pelo chavismo à sociedade.

A hipótese de recorrer a esse expediente foi reforçada pelo secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), o uruguaio Luis Almagro, durante uma visita à Colômbia na última sexta (14).

Segundo ele, não se pode descartar o emprego de tropas para derrubar Maduro, apesar da ressalva de que as ações diplomáticas devem vir em primeiro lugar.

Poucos dias antes, uma reportagem do jornal The New York Times havia relatado reuniões secretas mantidas entre representantes da Casa Branca e militares venezuelanos que estariam determinados a realizar um golpe.

Cumpre lembrar que, no ano passado, o presidente americano, Donald Trump, também cogitou a via armada como saída para a crise.

Não restam dúvidas de que o descalabro chavista precisa ser aplacado, assim como é certo que qualquer intuito de destituição à força só alimentaria o discurso escapista de Maduro de que uma articulação internacional liderada pelos EUA busca desestabilizá-lo.

Felizmente, o Grupo de Lima, que reúne 14 países da região (entre eles o Brasil) na busca de uma solução para a Venezuela por meio da diplomacia, rechaçou as declarações de Almagro, em que pese não tê-lo citado de forma nominal.

Compreende-se a cobrança do dirigente da OEA por celeridade para cessar o sofrimento dos venezuelanos, mas o flerte com a intervenção o prejudica na tarefa de se apresentar como um mediador possível entre o governo e uma oposição que, além de cerceada, padece de falta de coesão.

Posições como essa apenas servem de pretexto para o regime se negar a abrir canais de diálogo. Não se pode permitir a Maduro o isolamento, levando a população consigo rumo ao abismo.

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