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Museu de cinzas

Incêndio na Quinta da Boa Vista aniquila parcela importante da memória nacional

Incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro

Incêndio no Museu Nacional, no Rio de Janeiro Ricardo Moraes/Reuters

​Não será de todo arbitrário tomar o incêndio que destruiu o Museu Nacional como uma metáfora da situação em que se acha o país. Instituições e serviços do Estado passam por grave crise, na penúria criada pela deterioração orçamentária em todos os níveis de governo.

Só por má-fé ou autoengano, contudo, alguém tentará lançar a tragédia da Quinta da Boa Vista na conta de uma única administração. O descaso com o principal museu da história e da pré-história brasileiras se cultiva há anos, se não há décadas, ou por gerações inteiras.

A devastação emerge como um símbolo consternador, ainda, por ter lugar no Rio, a capital imperial e depois republicana que mergulhou em colapso econômico e político pouco depois de sediar eventos mundiais e inaugurar um vistoso Museu do Amanhã.

O passado mais uma vez se impôs, com força exterminadora.

A um só tempo arderam o palácio bicentenário, adotado como moradia por dom João 6º (e em que se assinou a independência do Brasil) e, tudo indica, a quase totalidade de um acervo ímpar.

Além de uma das maiores coleções de arqueologia clássica da América Latina, perdem-se milhões de itens centrais para a identidade nacional e a história natural do país. Lá se encontravam, por exemplo, o crânio de Luzia —com 12 mil anos, o mais antigo fóssil humano por aqui— e um conjunto etnológico inestimável.

Está por ser dimensionado o grau de destruição de milhares de objetos de cerâmica, cestaria e arte plumária ali guardados. Estima-se que tenham sido dizimados testemunhos de centenas de povos indígenas, muitos já desaparecidos.

Pereceram também vários holótipos, os espécimes originais que serviram para a descrição científica de espécies da flora e da fauna brasileiras. Biólogos do futuro não poderão mais recorrer a eles para comparação, a fim de verificar se seus achados são de fato inéditos.

À luz da grandeza do Museu Nacional, parecem apequenar-se os manifestantes que se postaram nesta segunda-feira (3) diante de seus portões para protestar contra o teto dos gastos aprovado durante o governo de Michel Temer (MDB), entre outros alvos.

Embora os números ainda careçam de exame mais detido, não há dúvida de que houve corte de recursos para o museu, ligado à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entretanto a má alocação do dinheiro público é problema muito mais amplo e antigo —ao qual a comunidade científica deveria dedicar atenção maior.

Existe precipitação também em atribuir de pronto as causas do desastre apenas à carência de verbas.

Não se sabe ainda o que iniciou as chamas. Parece provável que o abandono do prédio, objeto de reportagem desta Folha em maio passado, tenha contribuído para sinistro tão devastador, mas a prudência exige que se aguardem os resultados de investigação para aquilatar o peso de cada fator.

Fato é que o Brasil inteiro —Planalto, empresas, o público— voltou as costas para o Museu Nacional. O incêndio que o destruiu resulta e já faz parte de nossa história.

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