Descrição de chapéu Opinião Isabel Gnaccarini

Somos o país do Bendegó

Meteorito personificou o trágico incêndio no Museu Nacional

O meteorito Bendegó, que resistiu ao incêndio no Museu Nacional
O meteorito Bendegó, que resistiu ao incêndio no Museu Nacional - Erwan Le Bourdonnec - 10.out.17/AFP

Pouco mais de 200 anos após a criação do Museu Nacional do Rio de Janeiro por Dom João 6º, o então regente do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, o que mais choca não é a destruição dos cerca de 20 milhões de itens dos maiores acervos de arqueologia, paleontologia, botânica, zoologia do mundo, irremediavelmente perdidos no incêndio que tomou o palacete da Quinta da Boa Vista (zona norte do Rio de Janeiro).

O que mais impactou foi, de fato, perceber que o único a sair intacto dos escombros em brasa foi Bendegó, o meteorito de 5 toneladas (o maior encontrado no país) que muito já impressionou crianças e adultos visitantes do museu.

Ao contrário do que se possa argumentar, não foi o choque pelo desaparecimento de Luzia, o fóssil humano mais antigo encontrado nas Américas, o que mais doeu na tragédia, ainda que seu crânio tenha confirmado nossa presença como espécie nesse território já pelos finais da última era do gelo, 12 mil anos atrás, ou que essa criatura tão antiga tenha corroborado novas hipóteses sobre as migrações para este continente.

Não foi, tampouco, o sentimento fúnebre pela ruína da maior coleção de arte egípcia da América Latina o que mais chamou a atenção, em que pesem suas 700 peças (múmias, sarcófagos, estatuetas e amuletos) terem sido choradas pelo arqueólogo e ex-ministro de Antiguidades do Egito Zahi Hawass, capitão da campanha de resgate do patrimônio daquele país ainda disperso pelo mundo. Nem foi o enorme pesar de cientistas pelo repentino sumiço de várias coleções de plantas e animais o que mais repercutiu, apesar de estarem elas entre os testemunhos mais importantes da evolução naturalista do país.

Menor ainda foi a tristeza de milhares de pessoas diante das chamas que consumiram a arquitetura e o mobiliário do antigo Paço de São Cristóvão, endereço oficial de moradia e da política brasileira à época da transferência da corte portuguesa para cá diante da verdadeira agonia, se bem que devemos reverenciar o fato de que, com a vinda da nobreza, veio também o aparato de um Estado soberano, o primeiro passo em direção à nossa verdadeira independência como nação.

Bendegó, sim, personificou a tragédia brasileira. Seu peso inerte materializou-se como presença de um país que arde tal qual ardeu o prédio principal do palácio da Quinta da Boa Vista. Ele equivale ao que sobrou de escombros da destruição das ruínas da cidade de Palmira, na Síria, pelos terroristas do Estado Islâmico segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação e Cultura (Unesco).

O significado último desse incêndio é o do descuido com a cultura e o patrimônio no Brasil: “não foram os 200 anos de museu, mas foram as joias da cultura mundial perdidas pela falta de atenção ao patrimônio histórico no país”, sintetizou Paulo Knauss de Mendonça, diretor do Museu Histórico Nacional (MHN), unidade do Instituto Brasileiro de Museus no Rio de Janeiro.

O que, enfim, sobrou foi o sentimento “de dor, raiva e medo” expresso na nota de comoção dos docentes da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) pelo historiador e antropólogo José Maurício Arruti – foram-se “(...) 200 anos de história científica". "Milhares de anos de fontes documentais. Uma das melhores bibliotecas de antropologia do país. Uma centena de carreiras destruídas. Uma tragédia inestimável, que é a metáfora de uma tragédia ainda maior. (...) O Museu Nacional era o símbolo da possibilidade que o trabalho intelectual tem em converter um projeto civilizatório imperial em um projeto civilizatório democrático, forjado na luta do saber contra preconceitos, racismos e relações de poder desiguais.”

Afinal, é disso que se trata, de uma tragédia anunciada em um país “em que preservar a história é mais um desafio do que uma prioridade”, na contramão da atual ciência do patrimônio cultural material e imaterial e da biodiversidade. É por meio dos testemunhos do passado que reconstruímos, hoje, nossas bases de civilidade, conhecimento, justiça e razão. Trata-se, portanto, de alertar para a espiral da história que conecta tempos distintos, e o papel do passado nas narrativas e estratégias de poder e de afirmações identitárias do presente.

Isabel Gnaccarini

Jornalista e doutoranda em ambiente e sociedade pelo Nepam/ IFCH - Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)

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