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Ricardo Antunes

A direita veio para ficar no panorama político do Brasil? NÃO

O que parece sólido se desfaz

Composição de fotos de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, que disputam o segundo turno presidencial - Ricardo Moraes/Reuters e Amanda Perobelli

Desde a ditadura militar as eleições nunca foram tão agônicas. Talvez 2018 encontre alguma similitude com 1989, quando Collor apareceu como azarão civil que empolgou os "de cima" e arrastou muitos "de baixo". Durou dois anos e arrebentou o país. Empobreceu ainda mais os que pouco tinham. O novo azarão, agora semifardado, uma espécie de Trump dos grotões, vocifera "contra o sistema" que só o beneficiou.

Seria mesmo um milagre que, em um mundo tão conturbado, algo similar aqui não ocorresse. Trump nos EUA, o "brexit" no Reino Unido, neonazismo na Alemanha, Orbán xenófobo na Hungria, e Matteo Salvini, ministro fascista decidindo a política migratória na Itália. Enfim, é extensa a lista das aberrações realizadas pelas direitas no mundo. Portugal oferece um pequeno contraponto a esse cenário.

Na América Latina, Macri é o exemplo maior. Fez o que a direita impõe e só trouxe devastação. Piñera, no Chile, ressurge das cinzas da desertificação neoliberal. É cedo para dizer que López Obrador, no México, será algo diferente de um bom orador.

Esta "era das trevas" foi a resposta das corporações financeiras globais e seus governos (à direita e à "esquerda") frente à "era das rebeliões" que sacudiram o mundo pós-crise de 2009.

Da Grécia à Espanha, dos EUA à Inglaterra, da Tunísia a quase todo o mundo árabe, tudo o que parecia sólido estava derretendo.

Derrotadas quase todas as rebeliões, chegou a vez de o impiedoso pêndulo eleitoral se voltar de novo para as direitas, em versões mais extremadas. Adentramos num ciclo de "contrarrevolução preventiva" que recusa qualquer forma de conciliação, pois almeja mesmo a devastação.

No Brasil, o aparentemente inesperado também ocorreu: a centro-direita desvaneceu e a extrema destra proliferou. A primeira corrente, dividida entre Alckmin, Meirelles e o turbinado Alvaro Dias, minguou. Novidade foi o bem comportado banqueiro Amoêdo, o João da Moeda.

Criado o vácuo, a extrema direita soltou seus demônios também no Brasil. Saiu do armário. Seus experimentos nazifascistas pretéritos já borraram indelevelmente a história da humanidade, exacerbando o ódio aos judeus e aos comunistas.

Em sua atual versão, agregaram novos "valores": têm horror aos pobres e aos negros, adotam a misoginia como prática cotidiana, querem ver as mulheres no fogão, envaidecem-se do feminicídio, odeiam as belas Marielles, querem exterminar os "anormais" LGBTs e extirpar as comunidades indígenas. 

Adicionaram novos traços à sua nova suástica, sem abandonar as anteriores. Com Pinochet, aprenderam a rimar ditadura militar com neoliberalismo.

Para impedir a vitória desse horror no segundo turno, é imprescindível ampliar o leque de votantes. Incluir os liberais que preservam algum valor de humanidade; os democratas de centro e de esquerda; os cristãos conservadores e os da teologia que lutam pelos pobres; os social-democratas, os diversos socialistas, os distintos comunismos, os vários anarquistas e libertários. Todos sabem como começa o fascismo, mas não imaginam até onde ele vai. As mulheres, os jovens, a classe trabalhadora e os movimentos sociais são vitais nesse embate.

Todos esses votos são imprescindíveis para que as eleições desde 1989 não se tornem "coisa do passado". Na história, nada é eterno. Mas hoje é imperioso derrotar o fascismo. O que só é possível pelo voto claro em Haddad, que, vale dizer, significa muito mais do que votar no PT.

Ricardo Antunes

Professor titular de sociologia no IFCH/Unicamp e autor de "O Privilégio da Servidão" (Boitempo)

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