Descrição de chapéu Opinião Paulo Ghiraldelli

Mães jovens na hora do voto

Deveríamos pensar que um presidente é um modelo para crianças

Urna eletrônica sendo preparada para a eleição - Pedro Ladeira - 19.set.18/Folhapress
Paulo Ghiraldelli

Não é raro dizer que “votamos nas eleições querendo um Brasil melhor para nossos filhos”. Mães e pais jovens dizem isso. Todavia, quando assim afirmam, nem sempre percebem que seus filhos escutam. E as crianças entendem —sabem que o candidato escolhido terá a grande missão de “fazer a coisa certa”.

Tomam os pais como referência e, portanto, também os candidatos escolhidos. Um presidente da República é uma referência de personalidade a ser seguida, principalmente se os pais o endossam. Deveríamos pensar nisso.

O mundo de hoje é o mundo da imagem. Nunca a imagem educou tanto quanto atualmente. Os vídeos de um candidato atacando mulheres, desqualificando-as, dizendo que fazia sexo com animais “porque naquela época não havia mulher” não vão desaparecer.

As crianças que serão educadas por seus pais tendo esse candidato como modelo de homem e de herói verão esses vídeos. Acharão isso o correto, uma vez que seus pais apoiaram um tal candidato. É assim que funciona a cabeça infantil.

Não sei se as mães jovens, principalmente, já pensaram no assunto. Será que acreditam que o voto que dão para um candidato não é uma pedagogia? Será que não percebem que um candidato que desrespeita as mulheres de todo tipo terá seus vídeos, nesses atos bárbaros, exibidos na TV do mundo todo quando for se apresentar na ONU? O que dizer em casa?

A mãe jovem irá dizer: “olha filho, esse é o homem que papai e mamãe acham como um exemplo de brasileiro, por isso o escolhemos como nosso presidente”. Pode uma mãe jovem não perceber o estrago na cabeça do seu filho ao agir no endosso de tal bruto?

Infelizmente, há mães que não entenderam que embora as crianças não se movam por política, andam atentas diante de modelos morais escolhidos pelos pais. Para alguns de nós, um jogador de futebol pode ser um crápula, contanto que faça gols. Mas, quando vemos nossos filhos deixando de lado os gols e imitando o craque no que ele tem de caráter de crápula, então nos lembramos de logo dizer aos nossos filhos: “olha, atleta de verdade não age assim”.

Mães inteligentes deveriam fazer o mesmo quanto a outros ídolos. Não deveriam dar chance ao azar. O presidente da República se torna, sim, um ídolo. O bombardeio de imagem dele sobre as crianças é imenso, e a associação de sua figura ao aval dos pais, em casa, é uma força inaudita na formação moral das crianças.

Não estou falando aqui só da questão de algumas mães colocarem as filhas para arrumar a louça, deixando os meninos folgados. Falo de dar parâmetros, modelos, paradigmas de ação. Paradigmas de ação de um presidente que ofende mulheres irá produzir brasileiros, daqui a poucos anos, incapazes de entender o que falamos quando falamos de igualdade de gênero, de feminicídio, de Lei Maria da Penha.

O presidente que escolhemos, quando é mau exemplo por meio de imagens, se torna um educador poderoso, em especial se as imagens que ele carrega são as que reforçam a opressão.

Paulo Ghiraldelli

Filósofo, professor da ECA-USP e autor, entre outros livros, de "Dez lições sobre Sloterdijk" (Vozes, 2018)

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