Descrição de chapéu

Reacomodação geral

Só o tempo esclarecerá como a nova configuração política enfrentará graves problemas do país

O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, durante entrevista à imprensa no Rio, neste mês
O candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, durante entrevista à imprensa no Rio, neste mês - Ricardo Moraes/Reuters

Cristalizou-se, a julgar pelos números da mais recente pesquisa do Datafolha, a liderança folgada de Jair Bolsonaro, do PSL, nesta reta final da corrida ao Planalto. Numa eleição quase sem padrões, mantém-se a escrita de haver pouca oscilação nas preferências do eleitorado durante o segundo turno.

Aflorou, como ficou patente no primeiro turno, um movimento de massas que mudou a face da política brasileira tal como ela vinha se desenvolvendo desde o início da década de 1990. A eleição de Bolsonaro, cada vez mais provável, seria um desfecho coerente com esse ânimo mais geral de ruptura.

Em Minas, Rio e Distrito Federal, os novatos Romeu Zema (Novo), Wilson Witzel (PSC) e Ibaneis Rocha (MDB), arrastados pela vaga de insatisfação contra lideranças tradicionais, são favoritos para desbancar, com larga margem, políticos de peso como Antonio Anastasia (PSDB), Eduardo Paes (DEM) e Rodrigo Rollemberg (PSB).

O que será dessa novíssima configuração no enfrentamento dos graves problemas econômicos, orçamentários e sociais é uma incógnita que apenas o tempo esclarecerá. Já é possível, contudo, notar uma rápida acomodação do statu quo ao enquadramento com Jair Bolsonaro na Presidência.

Há mais que incompetência na hesitação do PT em fazer concessões programáticas e gestos de conciliação a fim de atrair rivais para o apoio a Fernando Haddad.

Diante da expectativa de derrota, o partido calcula que uma reviravolta —a implicar, por exemplo, abrir mão de politizar a prisão do ex-presidente Lula— poderia desfigurá-lo e ameaçar seu papel de principal força opositora a um eventual governo Bolsonaro.

O próprio desabafo contra o PT do senador eleito Cid Gomes (PDT-CE) parece ter sido o primeiro ato de uma longa disputa pelo protagonismo na oposição.

Quando passar o aturdimento da surra que levaram nas urnas, lideranças moderadas e não cooptáveis pelo bolsonarismo, do PSDB, do MDB e de outras legendas, também vão engrossar essa contenda.

Do outro lado, uma fila de mandatários incapazes de sobreviver longe do governo se forma na porta do PSL. Novas regras estimularão políticos de siglas nanicas, atingidas pela cláusula de barreira, a migrar para partidos próximos ao poder.

O chamado centrão, a geleia de fisiologismo disposta a prestar serviços mediante recompensa, organiza-se para influenciar a eleição do presidente da Câmara. Assim caminha a política brasileira. Tão renovada em certos aspectos, mas não, ao que parece, em todos.

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