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Retórica de transição

Presidente eleito e sua equipe ainda estão em processo de adaptação às novas funções

Parte da equipe de transição do governo Bolsonaro, Marcos Pontes, general Augusto Heleno, Onyx Lorenzoni e o empresário Marcos Aurélio Carvalho (da esq. para dir.) - Pedro Ladeira/Folhapress

Transições de governo naturalmente produzem declarações desencontradas dos eleitos e de suas equipes, que ainda estão em processo de adaptação às novas funções e responsabilidades.

No caso de Jair Bolsonaro (PSL), a tendência é agravada pela ligeireza de sua retórica populista, que ignora complexidades das políticas públicas e aborda temas delicados sem medir palavras.

Entre os erros mais brandos estão os que resultam de inabilidade vocabular. Nessa categoria está a afirmação do presidente eleito de que seria preciso "renegociar" a dívida pública. A ideia soa tão estapafúrdia no programa do novo governo que logo se entendeu tratar-se de tropeço na linguagem.

Um degrau acima surgem o que parecem ideias precipitadas pela falta do que dizer em entrevistas ou aparições públicas. É o caso da volta da educação moral e cívica aos currículos escolares ou das críticas ao 13º salário, ambas da lavra do vice, general Hamilton Mourão, ainda na campanha.

Quanto à primeira, a criação e a extinção de disciplinas não se dão por um ato de vontade da autoridade política. Trata-se de algo que depende de estudos de viabilidade e debates entre gestores e docentes. Há anos se examinam, nesse sentido, bases curriculares para os ensinos médio e fundamental.

Quanto ao 13º, nem mesmo se compreendeu o objetivo das elucubrações de Mourão. A regra trabalhista foi descrita em palestra como um fardo para as empresas, quando consiste apenas em estabelecer o número de parcelas da remuneração dos empregados.

Mais preocupantes são os equívocos decorrentes de um desconhecimento mais profundo de como funcionam o governo e as estruturas de Estado. Aí se encaixa a recente queixa de Bolsonaro contra a metodologia de cálculo do desemprego adotada pelo IBGE.

Suas considerações eram improcedentes. À diferença do que disse, quem recebe Bolsa Família não faz parte, automaticamente, do contingente de ocupados.

Pior, o eleito demonstra ignorar que estatísticas do gênero seguem critérios desenvolvidos ao longo de décadas, nos quais se baseiam a elaboração de séries históricas e comparações internacionais. Não é coisa que se mude, pois, ao gosto do chefe de ocasião.

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