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Agenda de conflitos

Datafolha mostra rejeição majoritária a boa parte das teses do governo Bolsonaro

O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília
O presidente da República, Jair Bolsonaro, durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília - Adriano Machado/Reuters

O presidente Jair Bolsonaro (PSL) cultiva afinidades ideológicas com seu congênere americano, Donald Trump, o que se refletiu na escolha de seu ministro das Relações Exteriores. Dois terços dos brasileiros, entretanto, discordam de privilegiar os EUA na diplomacia.

Esse está longe de ser o único caso em que propostas e posições abraçadas por Bolsonaro se desencontram da opinião pública aferida pelo Datafolha. Em particular, está longe de ser consensual —e nem mesmo chega a ser majoritária— boa parte da pauta comportamental conservadora, tão cara a seu eleitorado mais fiel.

O presidente se elegeu prometendo, por exemplo, uma marcha a ré no que considera uma pregação marxista, antirreligiosa e sexualizada no ensino brasileiro.

Essa é a motivação do movimento Escola sem Partido, apoiado pela bancada evangélica que está entre os esteios de seu governo: banir de sala de aula a doutrinação política (como identificá-la?) e a chamada ideologia de gênero que estaria na base da educação sexual.

A maioria dos brasileiros desaprova esse retrocesso sectário. Nada menos que 71% deles concordam que assuntos políticos devem seguir em debate nas classes. Também prepondera a opinião de quem deseja que a educação sexual permaneça no ensino: 54%.

Carece ainda de apoio na população a liberação da posse de armas de fogo no país. Em realidade aumentou o contingente refratário, de 55%, em outubro de 2018, para 61% dos ouvidos pelo instituto.
Um dos raros temas em que a pauta de Bolsonaro conta com amplo apoio, de 67%, é a proposta de maior controle na imigração.

Por outro lado, e com boa dose de realismo, 49% avaliam que a saúde pública vai piorar com a saída dos médicos cubanos desencadeada pela ditadura caribenha em retaliação ao presidente.

Nenhum governante fará o melhor por seu país, por certo, se seguir apenas o que deseja a opinião pública. De líderes responsáveis se espera coragem de tomar decisões que, embora impopulares de imediato, se mostram imprescindíveis para o futuro. Idealmente, estadistas devem exibir também disposição para o convencimento.

Há uma tarefa árdua pela frente com a reforma da Previdência, rejeitada em pesquisa de 2017 por 71%. Não surpreende, ainda, que 60% se digam hoje contrários a privatizações e 57% repudiem uma redução das leis trabalhistas.

A vitória eleitoral e a ampla expectativa favorável, de 65% dos brasileiros, ao novo governo não significam, como se vê, um endosso automático de toda o programa defendido na campanha —sem o devido debate, acrescente-se.

Um presidente com agenda tão ampla e controversa precisa saber escolher as boas batalhas, distinguindo-as daquelas que só fomentam a polarização de palanque.

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