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Autoexílio

Decisão de Jean Wyllys deveria consternar todos os que se preocupam com o futuro do Brasil

Jean Wyllys durante evento no Rio, no ano passado
Jean Wyllys durante evento no Rio, no ano passado - Mauro Pimentel - 2.abr.18/AFP

Goste-se ou não do cidadão Jean Wyllys, concorde-se ou não com a agenda que ele promoveu como deputado federal pelo PSOL-RJ, o anúncio de que o medo de ameaças o levou a desistir do terceiro mandato parlamentar deveria consternar todos aqueles que se preocupam com o futuro do Brasil.

Como afirmou em entrevista a esta Folha, ele está de férias no exterior e nem pretende voltar ao país, pois teme a possibilidade de ser assassinado. Em outras palavras, um político eleito pelo povo não se sente seguro para exercer uma das funções que estão no coração da democracia representativa. 

Caso raro de congressista que se declara homossexual e defende direitos LGBT, Wyllys há muito tempo é vítima de campanhas de ódio nas redes sociais e ataques sórdidos a sua reputação. Desde que sua colega de partido, Marielle Franco, foi morta em março de 2018, passou a andar protegido por policiais.

“Antes disso, havia ameaças de morte contra mim e, curiosamente, não havia contra ela. Nunca achei que as ameaças de morte contra mim pudessem acontecer de fato. Então, nunca solicitei escolta. Mas, quando rolou a execução da Marielle, tive noção da gravidade”, disse.

Compreende-se o receio. Matadores fuzilaram Marielle quando ela atuava como vereadora carioca; quase um ano depois, o crime continua sem esclarecimento.

Apesar desse histórico fúnebre, membros do PSL, partido do presidente, acharam que cabia debochar da situação, ao passo que bolsonaristas reforçaram a violência retórica contra Wyllys

Ao que tudo indica, também se ressentem de capítulo lamentável de abril de 2016, quando se votava a abertura de impeachment de Dilma Rousseff (PT). Na ocasião, o deputado do PSOL cuspiu no então colega parlamentar Jair Bolsonaro.

Os apoiadores do presidente parecem não perceber que as desavenças ideológicas e comportamentais não podem se traduzir em intolerância, sob pena de sacrificar um ambiente político que acomoda ampla variedade de ideias. Hoje o cerceamento atingiu Wyllys; amanhã será a vez de quem?

Quem compreendeu esse ponto foi o general Hamilton Mourão. Um dia depois de Bolsonaro e seu filho Carlos terem se manifestado de forma ambígua nas redes sociais, o vice-presidente foi inequívoco. 

“Quem ameaça parlamentar está cometendo um crime contra a democracia, porque uma das coisas mais importantes é você ter sua opinião e ter liberdade para expressar sua opinião”, disse.

O autoexílio de um congressista é algo de que não se tinha notícia no Brasil faz mais de três décadas. É situação típica de ditaduras ou de democracias em decomposição, duas condições que o país felizmente não ostenta. 

Há algo de muito errado quando a insegurança chega a esse nível na política justamente num governo que declara ter a segurança como uma de suas principais bandeiras.

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