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Ricardo Viveiros

Memória pequena, problema grande

Aplicativos de transporte privado mudaram com o tempo

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Ricardo Viveiros, na cerimônia de premiação da ABCA (Associação Brasileira dos Críticos de Arte), em 2016 - Lela Beltrão - 31.mai.16/Folhapress

Muito já se fez, se faz e, infelizmente, ainda se fará de maneira no mínimo descuidada em nome da democracia, do livre mercado e dos direitos sociais que, supostamente, protegem o cidadão, o consumidor e o contribuinte.

Criado nos EUA, no final da década de 2000, o serviço eletrônico na área de transportes privados urbanos (e-hailing) permite, com um aplicativo instalado em aparelho telefônico celular, operação semelhante à de usar o tradicional táxi. Uma “carona remunerada”, porque os motoristas são proprietários de seus veículos, não são profissionais, assumem os gastos (impostos, combustível, conservação, seguros e reparos) e fazem o horário que lhes interessa. Ou seja, com baixos custos para o informal “empregador”.

Cinco anos depois da novidade, apenas uma empresa do segmento, a Uber Technologies Inc., era avaliada em mais de US$ 18 bilhões, tendo investidores do peso da Goldman Sachs, Google e Microsoft. A Uber tornou-se multinacional e estendeu sua ação a diversos países.

O serviço foi criado para oferecer “luxo”, limusines e helicópteros para personalidades que buscam algo especial. Em pouco tempo, passou a concorrer com os táxis convencionais. Em países como França, Alemanha, Espanha, Coreia do Sul, Japão, China, Índia e México não foi nada fácil a chegada dos aplicativos de transportes. Na Bélgica, Grécia, Holanda e Suíça, há restrições.

Além de muitos protestos, os governos fizeram exigências, cobram impostos e fiscalizam o cumprimento do prometido. Em Nova York (EUA), seu berço, a Uber foi autuada em US$ 8 milhões. Também recebeu punições em Los Angeles e San Francisco. Na Colômbia, há multas de até 450 milhões de pesos.

Aqui no Brasil, os aplicativos de transportes privados chegaram em 2014, no Rio de Janeiro. Pouco tempo depois, estavam em todo o país. Com protestos dos taxistas, alguma solidariedade de seus passageiros e a concordância dos municípios, mas, sempre em nome do livre mercado e interesse da sociedade. 

Porque os carros eram melhores, novos, limpos e confortáveis, os motoristas bem vestidos, simpáticos e oferecendo água fresca, balas, jornais/revistas e, acima de tudo, em razão de os preços praticados serem mais baratos, com rapidez e facilidade de pagamento, os prefeitos e as câmaras de vereadores encontraram os argumentos necessários para — “respeitando o interesse público” — quebrar o monopólio dos táxis oficiais, sob regulamentação, tributação e fiscalização das municipalidades, e autorizar a entrada no mercado da modernidade.

A chegada dos aplicativos de transportes privados urbanos mudou muita coisa nos táxis tradicionais: o alto preço no mercado ilegal de compra e venda das licenças, carros novos, limpos, aceitando cartões de débito/crédito, ofertando facilidades e mais rápidos no atendimento às chamadas. Mas o que ainda prevalecia em favor dos aplicativos era o preço baixo, incluindo, muitas vezes, atrativas ofertas relâmpagos.

O tempo passa, tudo se acomoda e o que se verifica na prática?

Surgiram outros aplicativos: Cabify, 99 Táxi, Easy Táxi, Vá de Táxi, MeLeva e BlaBlaCar. E, até mesmo, serviços de entregas de mercadorias, concorrendo com os Correios e as empresas transportadoras tradicionais. Sem a necessária fiscalização dos órgãos públicos, tudo mudou. E para pior. Não há mais facilidades (água, balas, jornais/revistas etc.); o tempo de espera aumentou; motoristas que aceitaram uma chamada, ao terem outra opção mais lucrativa, desistem, não avisam e, ainda, cobram taxa do usuário que ficou esperando sem atendimento e pediu outro carro; acabaram as promoções.

Por fim, há uma controversa avaliação do passageiro: reclame de alguma coisa, mesmo com razão, e não mais será atendido por nenhum motorista, porque sua “pontuação” cairá. Uma inversão de valores entre fornecedor e consumidor.

Entretanto, o grave mesmo fica por conta do principal argumento usado pelas municipalidades, prefeitos e vereadores, para autorizar/regulamentar esses aplicativos: o preço. Às vésperas do Natal e Ano Novo, então, os valores das corridas subiram de tal forma que superaram, em muito, os dos táxis tradicionais.

​É hora de alguém colocar ordem no assunto: prefeitos; vereadores; Ministério Público. Enfim, não podemos voltar ao passado. Avanços — e esse serviço, de fato, se constitui em um — são para dar certo. No mundo e também aqui neste país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza.

Ricardo Viveiros

Jornalista, professor e escritor, é conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI) e da União Brasileira de Escritores (UBE); autor, entre outros, de ‘A Vila que Descobriu o Brasil’ (Geração), ‘Justiça Seja Feita’ (Sesi) e ‘Pelos Caminhos da Educação’ (Azulsol)

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