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Rio de tragédias

Sequência de tragédias agrava sequelas sentidas na capital do Rio de Janeiro, estado assolado por rara sucessão de governos desastrosos

A cidade do Rio de Janeiro, não bastassem as sequelas sentidas na capital de um estado assolado por rara sucessão de governos desastrosos, viu-se abalada por três tragédias em sequência, no espaço de dois dias. Em sua esteira, contaram-se três dezenas de mortes.

O primeiro flagelo se abateu sobre a capital fluminense na noite de quarta para quinta-feira (6 e 7). Em poucas horas, despencaram —em especial sobre bairros das zonas sul e oeste— mais de 100 mm de chuva, com rajadas de vento superiores a 100 km/h.

O saldo da tempestade revelou-se aterrador. Foram sete mortos, dois deles num ônibus colhido por deslizamento de lama e árvores na avenida Niemeyer. A prefeitura decretou estado de crise e luto oficial. A Defesa Civil recebeu mais de 500 chamados para vistoria.

Torcedor do Flamengo se emociona em frente ao centro de treinamento do clube, onde dez garotos morreram após incêndio no alojamento das categorias de base
Torcedor do Flamengo se emociona em frente ao centro de treinamento do clube, onde dez garotos morreram após incêndio no alojamento das categorias de base - Ricardo Moraes/Reuters

Os bombeiros terminavam os trabalhos para desinterditar a famosa via de ligação entre as zonas sul e oeste, na sexta-feira, quando circulou a notícia tenebrosa: um incêndio no centro de treinamento de futebol do Flamengo, local conhecido como Ninho do Urubu, no bairro Vargem Grande (zona oeste).

O fogo consumiu um alojamento onde se abrigavam meninos e rapazes das categorias de base do clube. Dez deles foram encontrados mortos, e três ficaram feridos.

A terceira desgraça se deu na mesma sexta-feira no morro do Fallet, região central. Investida da Polícia Militar, que teria sido recebida a tiros no local, resultou na morte de pelo menos 14 pessoas.

A ação foi motivada pela série de confrontos entre quadrilhas rivais nos morros do Fallet, da Coroa e do Fogueteiro. Não se tem notícia de baixas entre os agentes policiais.

Há pouca coisa em comum, além da coincidência temporal, na origem dos três desastres. Pode-se dizer, contudo, que a ineficiência estatal no mínimo contribuiu para ampliar o número de vítimas.

Não foi a primeira chuva torrencial a flagelar o Rio de Janeiro, nem a única vez em que parte da ciclovia da avenida Niemeyer ruiu sob a ação de causas supostamente naturais —é evidente que há algo de equivocado naquele projeto.

O local de moradia dos jovens atletas no centro de treinamento do Flamengo, sabe-se agora, contava apenas com licença para funcionar como estacionamento. Falhou o clube ou falhou a prefeitura?

No morro do Fallet, surge mais um episódio de chocante letalidade policial. Há que aguardar as investigações para determinar se a violência foi desproporcional, mas não será surpresa se o evento entrar para a deplorável crônica de chacinas da PM fluminense.

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