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João Batista Oliveira

A rede pública de ensino deve priorizar o método fônico de alfabetização? Sim

Alfabetizar com método

Crianças em escola paulistana construtivista que utiliza o método fônico em sala de aula - Fernando Donasci - mar.17/Folhapress
João Batista Oliveira

A maioria das escolas brasileiras não consegue alfabetizar seus alunos. Alguns se alfabetizam, enquanto a maioria fica à margem.

Os entendidos concordam que o problema da alfabetização —como os problemas do ensino— não se limita a um fator específico, como salários, professores, materiais ou métodos.
 
No caso da alfabetização, a questão do método é importante e tem sido alvo de intensos arroubos e destemperos verbais. Três grupos divergem em aspectos importantes da questão.

O primeiro é formado por pesquisadores e profissionais que trabalham com base em evidências acumuladas sob o guarda-chuva da “Ciência Cognitiva da Leitura”. 

Esse grupo reconhece que o ensino da alfabetização deve ser feito de forma sistemática e explícita, com sequência, materiais e métodos próprios; e, portanto, em paralelo, mas não ao mesmo tempo que o ensino de outros componentes linguísticos —como a redação, o estudo do vocabulário ou a compreensão de textos.

A razão para isso se encontra nas limitações do cérebro em processar informações e na importância do uso consistente de regras para identificar as palavras —se o aluno aprende a ler ora usando as regras de decodificação, ora adivinhando a palavra pela forma ou pelo contexto, ele nunca será um bom leitor.
Isso já foi bem estabelecido por pesquisas rigorosas desde 1981. Esse grupo apoia suas convicções em evidências e resultados consolidados há mais de 20 anos.

Trata-se de uma tese vencedora em todo o mundo. A proposta é adotada em todos os países desenvolvidos que utilizam o Sistema Alfabético de Escrita —todos, sem exceção, além de Cuba.
O segundo grupo é formado sobretudo por educadores e especialistas em estudos da língua, que advogam o ensino contextualizado da alfabetização: o ponto de partida é o texto, não a palavra ou o sistema alfabético.

Esse grupo reconhece a importância dos métodos fônicos, mas não reconhece a necessidade de seu ensino sistemático e explícito. Apoia suas convicções em princípios teóricos e não se preocupa em apresentar evidências. É a tese vencedora no Brasil há mais de 40 anos, patrocinada pelo MEC e pelas faculdades de educação em todo o país —e os resultados estão aí.

O terceiro grupo é formado por pessoas e instituições que compartilham a visão teórica do segundo grupo, mas ignoram as evidências científicas sobre a importância do método fônico, minimizam a relevância de métodos, advogam o uso de métodos mistos e não apresentam resultados de seu trabalho. Com essas pessoas e instituições é impossível dialogar.

Um simples exemplo ajuda a entender a diferença prática entre essas visões sobre o lugar da alfabetização no ensino escolar. Quando ensinamos os fundamentos básicos do balé, as crianças não começam dançando “O Lago dos Cisnes”. 

Elas aprendem primeiro os fundamentos, de forma linear, sem ambiguidades. Ninguém aprende a se equilibrar “do seu jeito”. 

É treino pesado na barra, com foco na técnica. Aos poucos, vão se tornando capazes de articular movimentos e adquirir um repertório de habilidades fundamentais para participar de atividades mais integradas —fazendo “pontas” em apresentações escolares, ainda sem muita ideia do todo, mas absorvendo o contexto. Tudo a seu tempo e em seu devido lugar.
 
É isso que propõe a Ciência Cognitiva da Leitura. É a isso que resistem nossos educadores. Para eles importa a teoria, não as evidências.
 

João Batista Oliveira

Psicólogo e doutor em educação pela Florida State University, preside o Instituto Alfa e Beto, que desenvolveu o Programa Alfa e Beto de Alfabetização

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