Descrição de chapéu
Kenia Maria

A salvação não virá das #hashtags

Marielle estava presente na sua casa e você nem viu

A escritora Kenia Maria, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil - Chiacos/Divulgação
Kenia Maria

O Brasil está na lista dos países mais desiguais do mundo. Não somos tão amáveis, e o mundo já sabe disso, mas o que fazer agora com o retrato da "família margarina?" Ela precisa resistir: afinal, ajuda na manutenção do racismo, da homofobia, do patriarcado, do sexismo...

Apesar de o filho da "família margarina" estudar com o filho da babá (graças às cotas raciais), quem morre a cada 23 minutos? Quem ficará vivo para contar a história?

Estamos certos de que algo diferente deve ser feito para amenizar os efeitos colaterais de um "desastre" que jamais será curado com dieta vegana. A egocêntrica classe dominante brasileira deseja continuar ditando as regras e vive um incômodo que não tem passado em "branco".

A quarta revolução industrial não perdoará ninguém. Antes que se estabeleça o caos, é necessário encontrar um lugar na sua rede social para "boas ações". Ninguém quer ficar do lado feio da história das redes sociais. Quem é você no mundo virtual?

Todas as campanhas de reciclagem e as soluções para reduzir os canudinhos que estão matando as tartarugas marinhas, acompanhadas de #Mariellepresente e apoio à luta das mulheres, não são tão confortáveis longe do seu telefone "x".

Você não vai conseguir salvar o mundo comendo tofu defumado e tomando cerveja artesanal, com uma camiseta #FeminismoSim, enquanto a sua empregada prepara o seu caviar vegano de sagu. Mas, antes de a sua empregada atravessar a cidade e chegar em casa quando os seus filhos já estão dormindo, você precisa parar cinco minutinhos para dizer que a galinha que ela vai comer no terreiro de candomblé merece viver.

E assim, talvez, você consiga esquecer que Marielle estava presente na sua casa e você nem viu.
Você aprendeu que a violência acontece quando alguém rouba o seu carro e que o combate ao crime ocorre quando o braço armado do Estado entra atirando às 7h da manhã na comunidade onde mora o seu namorado. A única coisa mais violenta que a existência de "criança de rua" é a maneira como nós ignoramos a sua existência.
 
Não será mais tão confortável essa missão de salvar o mundo do seu celular "x", ele também tem sangue de inocentes do Congo.

O "nutricídio" está na dieta da população que vive na periferia desde quando a favela ainda era senzala.
Chegou a hora de denunciar o próprio filho que bateu na namorada, o pai que abusou da filha. Chegou a hora de proteger a babá da sua filha que apareceu com o olho roxo e que você sabe que ela não caiu da escada.

Quem é você quando ninguém está vendo? Quando tudo cala e você vê que não existe coerência nas suas hashtags?

Vamos precisar que você deixe a voz feminina que sua filha tem decidir os rumos da empresa. Mesmo que seu sonho seja ver seu filho naquele lugar, vamos precisar saber qual é o sonho dele.

E agora chegou a hora mais difícil: reconhecer, através de um salário justo, que somos todos iguais.
Não vão construir novos rumos para sua empresa sem ouvir quem nunca se sentiu representado por ela. Proponho que você ouça o som do silêncio e não minta a si mesmo.

É necessário também que reconheça com dignidade quando alguém finalmente te contar que o problema não é o seu samba fazer sucesso, o problema é Cartola e Bezerra da Silva morrerem pobres.

O problema não é a trança no seu cabelo, o problema é a menina que trança seu cabelo nunca ser a dona do salão de beleza. O problema não é a Tia Anastácia cozinhar, o problema é ela não ter seu nome nos livros de receitas e histórias. Precisamos garantir que a Tia Anastácia seja uma chef de cozinha e escritora premiada. O problema não é você. O problema é o lugar privilegiado que você ocupa.
Entendeu por que não é tão fácil ganhar o troféu "pessoa bacana"?

Ser contra a violência doméstica é não bater na sua filha porque ela não lavou a louça enquanto seu filho joga videogame.

Lutar pela presença de Marielle é garantir que a filha da sua babá não viva a violência diária de crescer sem ver a própria mãe. É defender seu filho João quando ele descobre que, na verdade, o nome dele é Maria. É permitir que sua filha use e abuse de todas as cores existentes fora do armário.

O texto acaba aqui, mas a nossa reflexão, não. Você se reconhece nesses personagens? Onde eles vivem? Se você não perceber que este é um jogo de cartas mascaradas, as suas hashtags, no final, serão inúteis.

Kenia Maria

Escritora, defensora dos Direitos das Mulheres Negras da ONU Mulheres Brasil e integrante da lista das 100 personalidades negras mais influentes do mundo, segundo o Mipad (Most Influential People of African Descent)

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