Descrição de chapéu
Claudia Tajes

A república do falo

Cortes na educação lembram os valentões do colégio

A escritora e roteirista Claudia Tajes - 31.mar.11/Folhapress
Claudia Tajes

Se fosse preciso escolher um símbolo para o governo Jair Bolsonaro (PSL), um único símbolo que resumisse as iniciativas em curso e as preocupações do nosso Executivo, ele só poderia ser um. O falo.
 
Para constar, e de acordo com a psicanálise, falo é diferente de pênis. O falo é o poder —que se materializa no pênis. Ou membro. Passarinho. Barbarroxa. Bimbo. Caceta. Cambão. Catatau. Espeto. Jeba. Lascão. Mastruço. Nabo. Mastro. Pau-barbudo. Pé de mesa. Benga. Ferramenta. Bracinho-sem-mão. Tora. São mais de cem palavras e expressões na língua portuguesa para designar o dito-cujo. Para facilitar, vamos considerar aqui que é tudo a mesma coisa. Que o falo é o pinto empoderado.

É piada, não é piada: não raro, quem decide pelo homem é o pênis. Reinos já caíram por conta de desejos e vontades que, sejamos honestos, tinham por objetivo muito mais a cama que a paz. A história é escrita por guerras, conquistas, traições, acordos, derrotas. E pelo falo.

E as mulheres nisso tudo? Para Freud, ao se sentirem castradas por uma cultura masculina, elas desenvolveriam a famosa inveja do pênis. Por seu lado, os homens reagiriam a essa inveja com medo da castração, eufemismo para a perda do poder, o que os tornaria ainda mais autoritários. É uma impressão leiga, mas tantas décadas depois de Freud, já não é assim. Em que pesem as dificuldades e as injustiças de uma sociedade no mais das vezes falocrata, as mulheres têm lutas e necessidades bem mais urgentes para desperdiçar energia invejando o falo. Sem falar na pá de coisas muito mais relevantes e importantes a ambicionar que uma estrovenga —mesmo que no sentido figurado.

Por isso mesmo, é doloroso testemunhar o falo governando o Brasil em pleno 2019. Mas o que esperar de uma eleição decidida pela mamadeira de piroca? 

Os cortes nos órgãos e programas de cultura e educação, nas verbas das universidades e nas bolsas de mestrado e doutorado lembram o desprezo dos valentões do colégio pelo ensino. Aqueles que iam às aulas obrigados pelos pais, só para fazer bullying com os colegas e colar nas provas. Certa manhã, na minha escola, um desses valentes foi cercado pelos fracotes oprimidos e tomou um couro. De quebra, ainda se descobriu que ele usava uma meia soquete dentro das calças para aumentar o seu, digamos, poder. Se o sujeito virou político para vingar a humilhação sofrida, pobres de nós.

A república do falo completa quatro meses e meio de desmandos que parecem uma eternidade. A farta distribuição de pipoco, anunciada na campanha como política para a segurança pública, agora é decreto assinado e documentado na foto mais abjeta dos últimos tristes tempos: o presidente cercado por um bando de homens brancos, abonados, em sua maioria velhotes, fazendo arminha com as mãos. Aliás, arma, pistola, ferro e bacamarte também são sinônimos de pinto.

O tal decreto que beneficiaria caçadores —uma das categorias mais abomináveis entre as mais abomináveis da raça humana—, colecionadores e aficcionados do tiro recreativo foi estendido para políticos, advogados, oficiais de Justiça, jornalistas da editoria de polícia, conselheiros tutelares, agentes de trânsito, residentes em áreas rurais, motoristas e autônomos de cargas e transporte de valores, seguranças privados.

Também vai facilitar a importação de armas e permitir que menores de 18 anos atirem. Basta a autorização de um dos responsáveis. Filho, não esquece de levar o casaquinho e o “trezoitão”.

O decreto quase kafkaniano (não confundir com o bolinho árabe do ministro da Educação) abre caminho para que outros cidadãos de bem reivindiquem o direito à bala. Um passo e tanto para se chegar ao porte de armas, velho sonho da república do falo. Sobre o provável aumento de homicídios, feminicídios e crimes interpessoais apontados pelos especialistas em segurança como consequência, isso é o de menos para os meninões do Planalto. Até porque existem coisas mais importantes a tratar. Por exemplo, recomendar que os brasileiros lavem seus pintos direitinho, com água e sabão.

Até a república do falo, governante algum havia pensado nisso. Mas quem tem quatro rapagões em casa deve saber do que está falando.

Claudia Tajes

Escritora e roteirista, tem 12 livros publicados, entre eles "As Pernas de Úrsula", "Sangue Quente" e "Por Isso Eu Sou Vingativa" (editora L&PM)

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