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Paulo A. Ramos

Joana D'Arc, a pesquisadora química

Trabalho deve despertar orgulho, não execração

A professora e pesquisadora Joana D'Arc Félix de Sousa - 22.ago.18/Folhapress
Paulo A. Ramos

Nos últimos dias vimos eclodir o caso do pós-doutorado da professora e doutora Joana D’Arc Félix de Sousa. Para quem não está a par do assunto, Joana D’Arc é uma brasileira, negra, de família humilde de Franca (a 400 km de São Paulo), e que com muito esforço se formou em química na Unicamp. Depois, fez mestrado e doutorado na mesma universidade.
 
Não bastasse, como mostrou esta Folha, teve a sua tese de doutorado publicada, no ano de 1994, no conceituado periódico científico “Journal of American Chemical Society”, quando tornou-se uma referência na sua área de atuação.

Joana D’Arc dedica-se desde 1999 à formação de jovens vulneráveis na Escola Agrícola de Franca. No exercício do magistério coleciona diversos prêmios, concedidos por autoridades reconhecidas no assunto, como o Conselho Regional de Química e a Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química).

Em vídeos de palestras e entrevistas ela costuma ensinar que é fundamental dizer “não ao vitimismo”. E prega que é possível fazer pesquisa científica no Brasil, ainda que em condições adversas: "Mesmo que em bancada de cimento”, reforça.

Sem nenhuma dúvida, a professora Joana D’Arc é referência para o Brasil; seu trabalho e suas pesquisas devem despertar orgulho em todos nós, assim como tantos outros professores e pesquisadores brasileiros.

E qual foi, então, o pecado capital de Joana D’Arc? Assim como milhares de brasileiros, por circunstâncias que às vezes a vida impõe, ela foi forçada a optar entre o sonho do pós-doutorado em Harvard ou cuidar da sua família. Optou pela família. E errou ao incluir informações inverídicas no seu currículo Lattes, afirmando que havia estudado na prestigiosa universidade americana. Sustentou o erro, por razões que não nos cabe julgar —e sem ter obtido nenhum benefício econômico sobre isso, o que é relevante. Ao ser confrontada com esse erro, o assumiu imediatamente e desculpou-se

É curioso, e não se pode deixar de notar, que não ganhou o mesmo destaque na imprensa caso semelhante envolvendo outra brasileira, cuja pele é branca, o que sugere certa tendência de maior severidade contra Joana D’Arc. Agora, é revelado na imprensa caso semelhante envolvendo o governador do Rio de Janeiro. Mas a ele não foi cogitada a imputação de crime, como o fez uma rede de TV com a professora.

Surgem notícias de que Joana D’Arc não teria prestado contas de verba recebida da Fapesp (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) para desenvolvimento de pesquisa científica, motivo pelo qual ela teria sido processada a fim de devolver o dinheiro. 

A professora foi julgada à revelia no citado processo, que está arquivado há alguns anos. Tão logo tomou conhecimento dele, via imprensa e orientada por este advogado, procurou a Fapesp, uma vez que o projeto foi desenvolvido e sua pesquisa rende frutos para a comunidade. No âmbito judicial, requeremos o desarquivamento dos autos.

A Folha também noticiou que parte dos registros de patente não foi concedida. Mas é importante destacar as inovadoras pesquisas, como aquela que criou pele artificial a partir da derme do porco, realizadas na Escola Agrícola de Franca com alunos do ensino público.

Assim, não se pode permitir que Joana D’Arc, tal como aquela que serviu de inspiração para o seu nome, seja execrada em praça pública —mesmo que tenha errado, o que a própria admite e pede desculpas. 
É necessário reconhecer o seu trabalho, assim como o de tantos valorosos professores e educadores, que cotidianamente lutam em prol de um Brasil melhor.

Paulo A. Ramos

Advogado e defensor da professora e pesquisadora Joana D'Arc Félix de Sousa

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