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André Rosa

Um aluno em defesa da universidade pública

Não há balbúrdia ou gente pelada, há pesquisa séria

"Balbúrdia é a família Bolsonaro" em cartaz em Brasília
Estudantes protestam em Brasília contra cortes na educação - Pedro Ladeira - 15.mai.19/Folhapress
André Rosa

A série de cortes anunciada pelo ministro Abraham Weintraub atinge não só o ensino superior, mas também a educação básica, desde a infantil. A precarização vai além: recai sobre laboratórios e hospitais que atendem a população.

Este ataque à educação afetará diretamente a infraestrutura das universidades. Não teremos como levar adiante pesquisas importantes, o que aumentará a nossa dependência em relação à produção estrangeira de conhecimento. Isso fere a nossa autonomia enquanto nação soberana e nos põe na humilhante condição de submissos no cenário internacional. Neste momento é fundamental reiterar que as universidades públicas respondem por 95% da produção científica

Cito um caso específico. A UFRJ sofrerá um corte de 41% no seu orçamento. Com isso, a compra de equipamentos para instalações de hospitais e laboratórios ficará comprometida. Somente no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, que pertence à UFRJ, são atendidos por mês cerca de 16 mil pacientes ambulatoriais e realizadas cerca de 400 cirurgias. O hospital atende não só a população da cidade do Rio de Janeiro, mas também de outros municípios do estado. Sem essa verba, o governo compromete não apenas o futuro do Brasil, mas a própria integridade física do povo brasileiro. 

Em um primeiro momento, Weintraub justificou a redução de verbas como forma de punir a “balbúrdia” promovida dentro das universidades federais. Balbúrdia, diz o Houaiss, significa “confusão” e “desordem”. É uma ofensa mesquinha a todos que estudamos e trabalhamos com seriedade no ambiente acadêmico. É uma ofensa a professores, advogados, engenheiros, médicos, sociólogos e demais profissionais que se formaram nessas instituições.

Sou aluno do curso de letras da UFRJ. Não represento um coletivo: falo somente em meu nome, em protesto às consequências desastrosas que se desenham. Diariamente, eu e outros alunos acordamos cedo para assistir às aulas e reafirmar o compromisso com a nossa formação. Alguns estudantes da UFRJ se deslocam de cidades vizinhas, às vezes com mais de duas conduções, para alcançar o sonho do diploma. Muitos são os primeiros de suas famílias a cursar uma faculdade. 

Com a perda de quase metade do orçamento, os cortes inviabilizarão a presença de alunos cotistas, monitores e bolsistas de iniciação científica, que pesquisam com seus professores. Não será possível produzir cursos de extensão, que servem às pessoas de fora da universidade, como o Curso de Línguas Aberto à Comunidade (Clac) da UFRJ, com aulas de russo, inglês, japonês, alemão, francês, hebraico, grego e árabe, todos ministrados por alunos de graduação.

Em um país com descompassos sociais e passado colonial, a universidade é um espaço de aglutinação, produção e propagação de toda uma teia de relações, saberes e culturas.

Não somos arruaceiros. Não há balbúrdia ou gente pelada no campus. Há pesquisa séria, desenvolvimento tecnológico e esforço coletivo para formar profissionais competentes para a sociedade.

André Rosa

Estudante de letras da UFRJ, pesquisa a recepção da literatura russa no Brasil; traduziu poetas russos como Aleksándr Blok, Vera Inber e Vladislav Khodassievitch

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