Descrição de chapéu
Celso Amorim

Clóvis tinha alma de repórter e senso de analista político

Conte-me tudo, dizia ele, sempre isento

Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma)
Celso Amorim, ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma) - Nelson Almeida - 13.set.2018/AFP
Celso Amorim

“Conte-me tudo!” Assim Clóvis Rossi começava as conversas com pessoas com quem mantinha relação próxima.

Alma de repórter, com senso crítico de analista político. Ele já era jornalista famoso e premiado quando o conheci, em Genebra, onde eu era representante do Brasil. Na ocasião, fim de 1992 ou início de 93, acabara de ser concluída a negociação da Convenção de Proibição de Armas Químicas, que me coube assinar em representação do então chanceler Fernando Henrique Cardoso.

Clóvis se interessou muito pelo papel do Brasil na construção daquele importante instrumento (o primeiro a banir um tipo de arma de destruição de massa, com um sistema de verificação “crível”) e expressou opinião crítica sobre o desinteresse da mídia por assunto de tal grandeza.

Anos depois, José Maurício Bustani seria derrubado da chefia do órgão encarregado de monitorar o cumprimento do tratado (a OPAQ, na sigla em inglês) por produzir provas que não estavam de acordo com a estratégia dos EUA em relação ao Iraque.

Clóvis apurava negociações econômicas e comerciais. Era frequentador de Davos e testemunhou o prestígio alcançado pelo Brasil na era Lula.

 

Longe de ser lulista ou petista, sempre demonstrou isenção e honestidade ao reconhecer que, no tempo do presidente Lula, era fácil para jornalista brasileiro ter acesso aos principais líderes internacionais.

Certa vez, disse a jovens jornalistas, numa palestra minha na Folha, em 2015, que, nos anos Lula, produzia-se curiosa inversão. Quando um líder de país importante reconhecia um repórter (Clóvis nunca deixou de ser repórter, como dizia) do nosso país, ocorria frequentemente que indagasse: “Você é do Brasil? Quero dar uma entrevista para você”.

Clóvis era plural. Tivemos discordâncias, sempre respeitosas. Isso se deu mais em relação ao Acordo Mercosul União Europeia. Ele era crítico do que considerava posição tímida do Brasil. Mas reconhecia acertos.

Ao final da Conferência Ministerial da OMC, em Hong Kong, em dezembro de 2005, em que os países em desenvolvimento, boa parte liderada pelo Brasil, obtiveram, contra a resistência dos ricos (leia-se a Europa), compromisso de eliminação dos subsídios a exportação agrícola, escreveu coluna em que destacou meu papel, com o título “Homem de Estado”. É um dos poucos “galardões” que mereci da mídia brasileira.

O mesmo senso crítico e objetivo demonstrou em relação à Declaração de Teerã sobre o programa nuclear iraniano, obtida por Brasil e Turquia e rejeitada por Washington.

Mesmo expressando seu ceticismo em relação à iniciativa, em 2010, Rossi reconheceria, anos depois, que o Acordo firmado por Obama sobre o assunto evidenciava “perda de tempo”, que teria sido evitada se os EUA tivessem aceito nossa proposta.

Clóvis era um democrata convicto de corte liberal (mas não neoliberal). Recentemente, tínhamos visões distintas sobre como encaminhar a crise na Venezuela, embora estivéssemos de acordo na condenação às ações intervencionistas de Washington, apoiadas pelo atual governo.

O meu artigo na quinta-feira (13), na Folha, sobre a doutrina Trump, foi inspirado em uma coluna de Rossi. Ao citá-lo nominalmente e ao reproduzir expressões que ele usou, não sabia que estava fazendo uma homenagem a um querido amigo e um jornalista versado em questões internacionais que fará imensa falta.

Celso Amorim

Ex-ministro das Relações Exteriores (2003-2010, governo Lula) e da Defesa (2011-2015, governo Dilma)

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