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José Ricardo Roriz Coelho

Crédito, a faísca que falta

Com economia aquecida, reformas têm mais chance

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O vice-presidente da Fiesp, José Ricardo Roriz Coelho - Karime Xavier - 05.jul.18/Folhapress

O Brasil vive em compasso de espera por mudanças que organizarão a nossa economia. Não há quem ainda não tenha ouvido falar na reforma da Previdência, que é fundamental, mas não esgota a pauta econômica.

Estamos todos aguardando também uma reforma tributária, além de um redimensionamento do Estado e a modernização de nossa indústria —o que passa pela incorporação de novas tecnologias de comunicação e de comércio.

Essa transformação tem de ser pensada, desde agora, como movimentos de médio e longo prazos. Sem essa percepção da sociedade, as engrenagens políticas não se movem. A falta de apoio popular pode comprometer tudo o que se tem feito para que o Brasil dê um salto de qualidade e se engaje num movimento global de modernização.

Sem reformas, não teremos uma economia organizada que inspire confiança no empresário de que seu investimento trará ganhos para seu negócio e para a sociedade. Sem esse investimento, o Brasil ficará para trás. Quando sairmos do estado letárgico, talvez seja tarde demais. Corremos o risco de ficar ao largo do desenvolvimento mundial.

O problema não é de hoje. O país já estava atrasado antes de o atual governo chegar a Brasília. Enquanto o restante do mundo se movimentava em direção à modernização, estávamos atravessando a maior crise de que se tem notícia. 

O Brasil ficou atrás não só na assimilação das novas tecnologias, mas também em sua regulação. E o motor do país está parado. É preciso uma faísca para dar a partida. Refiro-me ao crédito. Sem financiamento do consumo, as famílias restringem as compras. Com crédito, o consumo cresce, a renda aumenta, o emprego aparece —é um círculo virtuoso.

Quanto às empresas, o cenário não é diferente. Elas precisam de capital de giro para que produzam mais e gerem mais empregos. Com essa faísca é que começaremos a ter um movimento para a economia sair da situação em que se encontra.

A atenção às empresas e às famílias fará as pessoas voltarem a acreditar no país, criando um ambiente mais favorável à aprovação das reformas.

O governo recomenda às empresas buscar crédito junto aos bancos privados. Vale lembrar, porém, que mais da metade da disponibilidade de crédito para as empresas hoje está com os bancos públicos.

Quanto às famílias, estão endividadas e sem acesso a crédito. Sem que lhes dê condições de quitarem suas dívidas, ou acesso a novas linhas de crédito, elas não irão consumir como poderiam ou deveriam.
Não se pode, de uma hora para outra, simplesmente restringir o crédito das empresas e das famílias, como está acontecendo. Os bancos públicos sempre tiveram papel importante na oferta de crédito à população e é preciso retomar com cautela e vigor esse movimento.

Não se trata de o banco público distribuir dinheiro de graça —ou irresponsavelmente. Contudo, a situação do crédito não se resolve mandando as empresas procurarem crédito junto aos bancos privados, que é difícil e tem ficado mais caro, pois o spread tem aumentado desde dezembro sem a correspondente alta na inadimplência. Essa mudança brusca de orientação é inviável. Não se pode ir de 8 ao 80 num piscar de olhos. Seria fundamental, ao menos, um período de transição.

O cidadão brasileiro, além disso, tem de sentir que vai voltar a viajar, trocar de geladeira, comprar carro. Tem que saber que aquele primo que estava com dificuldade para criar o filho terá uma nova oportunidade porque a empresa em que ele trabalha comprou uma máquina nova.

As reformas de que o Brasil tanto precisa têm que andar em paralelo com o sentimento da população de que o país está na direção correta e que o amanhã virá com mais emprego, mais renda, maior capacidade de consumo. 

Sem a faísca proporcionada pela oferta de crédito, não teremos as reformas do jeito que precisamos, e as mudanças serão insuficientes.

José Ricardo Roriz Coelho

Vice-presidente da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico)

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