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Ogro filipino

Teme-se que Rodrigo Duterte possa tentar uma fórmula de perpetuar-se no poder

O presidente filipino, Rodrigo Duterte, discursa em evento em Tóquio
O presidente filipino, Rodrigo Duterte, discursa em evento em Tóquio - Charly Triballeau - 31.mai.19/AFP

Se serve de algum consolo, as declarações disparatadas do presidente Jair Bolsonaro (PSL) soam quase comedidas quando comparadas às assertivas de seu homólogo das Filipinas, Rodrigo Duterte.

Este, em viagem recente ao Japão, afirmou ter-se “curado” de um passado homossexual graças a lindas mulheres. De uma só vez, indispôs-se com gays e mulheres, que, embora façam aparições periódicas na lista de alvos do mandatário, estão longe de ser os destinatários principais de seus ataques.

Duterte já xingou a mãe do americano Barack Obama, amaldiçoou a União Europeia e ameaçou declarar guerra ao Canadá.

Nem religiosos escapam das diatribes. Num país em que 80% da população se declara católica, atacou o papa Francisco, chamou Deus de estúpido, a Santíssima Trindade de ridícula e os santos de bêbados. Qualificou os bispos como “idiotas inúteis” e conclamou seus concidadãos a matá-los.

O líder filipino também pede a eliminação física de traficantes e usuários de drogas —e vem sendo atendido. O número de assassinatos extrajudiciais de pessoas envolvidas com entorpecentes no país disparou depois que o presidente chegou ao poder, em 2016.

A oposição fala em 20 mil mortos; outras fontes, talvez mais confiáveis, mencionam a cifra de 5.000.

Duterte não é um tirano que conquistou o poder pela força —e isso só torna seu caso mais assustador. Ele foi eleito democraticamente e conta com apoio de 79% do eleitorado, segundo pesquisas.

Pode-se atribuir grande parte da aprovação ao desempenho da economia, que vem crescendo a um ritmo de mais de 6% anuais, com inflação e desemprego sob controle. A prosperidade encoraja filipinos a relativizar as manifestações absurdas de seu presidente.

As perspectivas futuras não se mostram animadoras em termos de democracia e direitos humanos. O Senado era a única instituição que ainda fazia algum contraponto ao poder de Duterte —o Judiciário já se encontra manietado.

Depois de conquistar recentemente a maioria na Casa legislativa, o líder filipino poderá dar continuidade a projetos mais polêmicos, como a introdução da pena de morte para traficantes.

Teme-se também que ele vá tentar uma fórmula de perpetuar-se no poder, seja diretamente, seja através da filha Sara Duterte-Carpio, hoje prefeita de Davao, a quarta cidade mais populosa do país.

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