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Ana Ribeiro

Rubens Ewald Filho e sua língua afiada

Apenas o cinema nacional escapava de críticas ferinas

O jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho - Greg Salibian - 06.out.18/Folhapress
Ana Ribeiro

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O jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho balançava o coreto com língua ferina e comentários insolentes. Por ser uma máquina de assistir a filmes e ter um repertório inigualável do cinema e de seus bastidores, ele pulverizava quem não chegasse aos pés de seu excelso conhecimento do assunto —e de sua paixão maior ainda. Não era um crítico acadêmico, muito menos certinho. Deixava claras suas preferências —tinha implicâncias também— e mostrava que, no fundo, a relação com o filme é sempre muito pessoal. Talvez por isso fosse tão popular.

Rubens era zero convencional, um porta-aviões carregado de mísseis politicamente incorretos. Essa munição o fez bater de frente com os “millenials”. Nas transmissões do Oscar, que comentou por anos a fio, primeiro na Globo e depois no TNT, era autêntico e falava o que pensava, por mais ousados que fossem seus pareceres. Não se acanhava de reclamar que a atriz era “feia” ou de chamar o filme de “chato”, e uma ou outra vez passou da conta em suas observações —como quando provocou a ira das redes sociais ao se referir à atriz principal de “Uma Mulher Fantástica”, uma mulher trans, como “um rapaz”. 

Rubens Ewald Filho em 1987 - Fabio Salles/Folhapress


Uma boa referência cinematográfica para Rubens Ewald é compará-lo a Norma Desmond (Gloria Swanson) de “Crepúsculo dos Deuses”, uma atriz do cinema mudo em tempos de cinema falado. Seus excessos, quase sempre charmosos, podiam parecer a atuação de um crítico ácido, mas a verdade é que ele era um amante à moda antiga do cinema e de suas estrelas e exercia sua função com generosidade. 

Ele tinha uma regra: não falava mal de filme brasileiro. Por conhecer de perto os perrengues do cinema nacional, e a missão heroica que costumava ser —e ainda é— colocar um filme de pé no Brasil, quando não gostava do filme ele simplesmente não fazia comentário algum. 

Nos anos 1980, Rubens era o anfitrião de todo e qualquer evento cultural da cidade. Foi a seu lado que Catherine Deneuve apareceu para a abertura de uma mostra em sua homenagem no Cine Belas Artes. Sônia Braga o recebia para jantar no Maksoud Plaza, então o único hotel internacional de São Paulo, durante as filmagens de “O Beijo da Mulher Aranha”. Foi com Rubens que Irene Ravache saiu para comemorar o Prêmio Molière, que ganhou por sua atuação no teatro. 

Seu apartamento na rua Alagoas, em Higienópolis, era uma contínua sessão de cinema. Ele tinha dois televisores, um ao lado do outro, e costumava assistir a dois ou três filmes ao mesmo tempo. 

Nos anos 1990, quando organizou a coleção Aplauso, uma série de biografias de artistas publicadas pela Imprensa Oficial, queria de alguma forma aplacar o déficit de memória do público brasileiro. Lançou dezenas de livros/depoimentos de artistas de cinema, da TV e do teatro, que puderam deixar um registro de uma história que também é a dele. Rubens atuou em filmes, dirigiu peças de teatro e escreveu roteiros de novela.

Rubens Ewald Filho nasceu em Santos, em 1945, era de peixes, tinha um irmão e dois sobrinhos. Morreu no dia 19 de junho, aos 74 anos. A missa de sétimo dia será nesta terça-feira (25), às 19h, na Igreja Santa Terezinha, na rua Maranhão, 617, em Higienópolis (região central de SP).

Ana Ribeiro

Jornalista e autora dos livros ‘O Gosto da Vera’, sobre a atriz Vera Holtz, e ‘Descobrindo Lília Cabral’ (coleção Aplauso)

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