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Mario Andrada

Sem heróis no radar do Brasil

Não há espaço nem energia para um novo Senna

Ayrton Senna abraça o eterno rival, Alain Prost, no GP da Austrália, em 1988 - 12.nov.88/AFP
Mario Andrada

As celebrações em torno do tricampeão Ayrton Senna por conta dos 25 anos de sua morte deixaram uma questão em aberto. Será que o Brasil tem condições de produzir outro ídolo da mesma magnitude? Por tudo o que se lê, vê e ouve, a resposta é negativa. Não existe hoje a menor chance de o país gerar um novo campeão mundial de Fórmula 1.
 
A realidade brasileira é tão complexa que o pessimismo, quanto a futuros heróis, se amplia para todos os esportes. Nos faltam recursos técnicos, financeiros e até a energia que a paixão da torcida produz.

Ayrton foi único na história da F-1. Além dos resultados, o que separa Senna do resto é a sua capacidade transformadora. Ele foi o primeiro piloto da história a entender que para ganhar precisava controlar todas as variáveis da carreira. Ayrton montou uma equipe própria para ser imbatível. Tinha fisioterapeuta, assessora de imprensa e um esquema empresarial exclusivo para tocar os seus negócios.

A história de Senna foi escrita assim, pela imprensa. O relato da mídia mostra um processo tenso. Alguns exemplos conectam a análise da imprensa, as reações do público e a superioridade que exibia nas pistas. Era perfeccionismo explícito.

Em 1988, Senna liderava o GP de Mônaco, com quase um minuto de vantagem sobre seu rival favorito, Alain Prost, quando cometeu um erro raríssimo na curva antes do túnel. Bateu e perdeu a prova —nem voltou para os boxes, onde devia explicações. Seguiu a pé para casa.

Esta Folha canalizou as frustrações da torcida com o famoso título “Ayrton Senna, o Barbeiro de Mônaco”. Senna ficou tão revoltado com a frase e com as reações em torno dela que nunca mais perdeu em Mônaco. Foram seis vitórias, no total. Nas quatro últimas ele fez questão de voltar ao tema, provocando aos jornalistas: “Então, está bom para o Barbeiro de Mônaco?”.

As duas decisões de título em Suzuka (Japão), 1989 e 1990, são outros exemplos de como o piloto tinha memória afiada. Em 1989, ele foi desclassificado após choque com Prost. Além da desclassificação, Senna acabou perseguido pelo então presidente da FIA (Federação Internacional de Automobilismo), Jean-Marie Balestre. O cartola exigiu um pedido público de desculpas. A inscrição do brasileiro no Mundial de 1990 só se confirmou após a McLaren produzir uma nota diplomática. 

Em 1990, Senna viu a perseguição continuar. A posição do “pole” na largada foi alterada por Balestre num movimento claro para irritar o piloto e facilitar a vida dos outros.

Indignado, ele prometeu resolver a questão logo na primeira curva. Assim foi feito. Ayrton deixou a batida acontecer. Levou o título e, em famosa entrevista coletiva, recheada de palavrões, confirmou que o acidente com Prost era uma revanche. Ele cobrava os prejuízos que lhe foram impostos. Fez justiça. Não existem mais pilotos com essa influência.

No Brasil de hoje não há espaço, energia nem recursos para um novo Senna. Ainda temos muito a aprender com o legado dele. Seria ideal se esse aprendizado pudesse se efetivar mais pelas lições de profissionalismo de Ayrton e menos pelo patriotismo das celebrações. 

Senna ficaria feliz vendo um país mais profissional e justo. Acharia melhor do que uma nação que tenta superar o seu desatino apenas festejando os heróis do passado.

Mario Andrada

Jornalista e ex-diretor-executivo de Comunicação dos Jogos Olímpicos Rio-2016

Erramos: o texto foi alterado

Ayrton Senna cometeu um erro e bateu sozinho quando liderava o GP de Mônaco em 1988, não em 1989, como publicado anteriormente. O texto foi corrigido.

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