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Arthur Guerra

Uma ousadia chamada Redenção

Não há método infalível para a abstinência total

O médico psiquiatra Arthur Guerra, responsável pelo programa Redenção - Reinaldo Canato - 23.ago.17/Folhapress
Arthur Guerra

O consumo de qualquer tipo de droga e seus efeitos maléficos para o organismo humano e a sociedade têm sido um desafio insuperável para qualquer país nas últimas décadas.
 
Assim como nas grandes cidades do mundo, São Paulo também convive com essa chaga. Em nenhum lugar do planeta esse problema foi totalmente resolvido, mas isso não pode servir como desculpa para não enfrentá-lo. O lançamento, no último dia 20 de maio, da fase 2 do programa Redenção traduz todo o inconformismo da Prefeitura de São Paulo com a atual situação da região conhecida como cracolândia.
Numa meta ousada para qualquer governo, queremos retirar, até o final de 2020, pelo menos 80% dos usuários de drogas que hoje circulam naquela área da cidade.

 Para chegar lá, o prefeito Bruno Covas (PSDB) escolheu o caminho mais longo, penoso e polêmico; mas, por isso mesmo, o mais confiável.

Como todo e qualquer tratamento de um dependente, esse enfrentamento requer convicção, paciência e tenacidade. Assim, o prefeito aceitou o desafio de criar um marco legal, mas fez questão de submeter o texto à discussão pública na Câmara dos Vereadores para que fosse referendado por toda a sociedade.

Como resultado do decreto, São Paulo tem hoje a primeira política sobre álcool e drogas de sua história.
A partir desse marco legal, vamos aprofundar e ampliar o que já é realizado pela nossa rede municipal de saúde na abordagem, acolhimento, internação e tratamento dos usuários de drogas. Além dos 93 Centros de Atenção Psicossocial (Caps), teremos agora um Serviço Integrado de Acolhida Terapêutica (Siat) em três etapas.

O Siat 1 cuidará do primeiro contato: a abordagem no local para oferecer assistência e tratamento ao usuário. Se houver concordância do dependente abordado, ele será encaminhado ao Siat 2 para uma acolhida temporária, onde poderá tomar banho, se alimentar, descansar e receber os primeiros tratamentos clínicos.

Após esse período, se o usuário se mostrar em condições e estiver disposto, será encaminhado para o Siat 3. Ali, ele poderá ser internado, receber um tratamento mais avançado e, no final, se preparar para voltar ao mercado de trabalho.

Para isso, haverá todo um esforço coordenado entre várias secretarias do governo municipal para o reestabelecimento dos vínculos sociais, da capacitação profissional e da inserção produtiva. Enfim, a tão desejada porta de saída para o dependente retomar a sua vida.

Todo esse processo será feito com respeito absoluto pelo indivíduo e suas particularidades. Isso quer dizer que o tratamento vai da redução de danos à abstinência, com idas e voltas, como toda e qualquer recuperação de um dependente de drogas.

Não existe uma receita pronta e muito menos mágica para tratar essa questão. Em mais de 40 anos como médico nesta área, não conheço nenhum método eficaz e infalível para a abstinência total e permanente do usuário de drogas.

É claro que a cura pela abstinência pura e simples seria o sonho de qualquer especialista. No entanto, sabemos que na maioria dos casos —principalmente quando falamos do uso do crack— a interrupção imediata e total do consumo é uma impossibilidade.

Essa é uma luta permanente, que envolve o poder público, mas também depende da vontade do dependente, do apoio de familiares e amigos, além de diversos fatores econômicos e sociais. O usuário precisa de compreensão, carinho, assistência médica e psicológica, mas também necessita de meios materiais para recuperar sua dignidade e retomar uma vida produtiva.

Para isso, o programa Redenção vai oferecer aos pacientes do Siat 3, em fase final de recuperação e sem utilizar drogas, uma bolsa de quase R$ 700 para uma jornada semanal de 20 horas em diversas atividades, como limpeza, jardinagem, hidráulica, construção civil e culinária.

Acolhido, tratado e capacitado para o mundo do trabalho e a vida social, esperamos que esse ex-usuário possa recuperar sua condição plena de cidadão. Nessa área não existe nenhuma garantia, mas só essa expectativa já nos dá a certeza de que estamos no bom caminho.

Arthur Guerra

Médico psiquiatra e coordenador do programa Redenção, da Prefeitura de São Paulo

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