Descrição de chapéu
Carlos Vogt e Mariluce Moura

A ciência ainda não faz parte da cultura brasileira

Há trabalho duro a ser feito na comunicação e em defesa da produção científica

Carlos Vogt Mariluce Moura

Oswaldo Cruz morreu em 11 de fevereiro de 1917, há pouco mais de 102 anos. Alberto Santos Dumont, quase 87 anos atrás, em 23 de julho de 1932. Espanta, assim, que os dois, ao lado do astronauta Marcos Pontes, atual ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações, tenham sido os mais citados quando se perguntou recentemente a jovens brasileiros, de 15 a 24 anos, que nomes de cientistas brasileiros lembravam.

Mais: só 5% dos 2.206 entrevistados que compuseram a amostra dessa população juvenil do país, em 21 estados e no Distrito Federal, apresentaram algum nome ­ —93% deles, de pronto, não sabiam nenhum.

Essa pergunta, na verdade, vem sendo feita há bastante tempo em levantamentos de percepção pública de ciência e tecnologia no Brasil. No início deste ano, foi repetida em pesquisa do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia, ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgada em 24 de junho passado.

De caráter pioneiro relativamente à faixa etária para a qual se voltou, sua metodologia foi similar à de levantamentos para o conjunto da população acima de 16 anos feitos pelo então Ministério da Ciência e Tecnologia e pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos em 2006, 2010 e 2015. E, lamentavelmente, a indagação sobre nomes de cientistas não trouxe respostas muito distintas das obtidas anteriormente. Mesmo das obtidas em "surveys" da década de 1980 e do ano 2000.

Olhado mais de perto, entretanto, o espanto inicial ante o fato de mesmo os poucos jovens aparentemente mais informados só serem capazes de identificar como cientistas um astronauta ou figuras notáveis que viveram dez, nove décadas atrás —intervalo de tempo que configura um remotíssimo passado no imaginário juvenil— cede lugar à percepção de que suas referências são endereçadas a personagens que já entraram na cultura popular.

Figuras intensa e longamente trazidas à cena por formas narrativas tão atraentes quanto as charges e as histórias em quadrinhos, por exemplo. Refletem, assim, um interesse difuso nessa espécie de ente nebuloso chamado ciência, que paira no ar ou no imaginário social, sem vínculo com um chão concreto, sem que se saiba onde e como se materializa ou quem o parteja.

 

Em outros termos, a narrativa da ciência propriamente não ecoa —ou ressoa muito pouco— na sociedade brasileira, incluindo aí sua parcela de 15 a 24 anos, mais de 30 milhões de pessoas. O vasto campo da comunicação da ciência, sob o qual podemos abarcar da comunicação científica interpares as muitas formas de divulgação científica e ao jornalismo científico, sem encontrar em seu trajeto um vasto lastro cultural que permita sua real incorporação ao acervo de saberes da sociedade, como que se bate contra um cérebro opaco.

Nesse ponto é que forçosamente voltamos à educação lato sensu. Do ensino formal, a exigir de forma gritante novas formas de abordagem capazes de quebrar o desinteresse ante tudo que não seja rápido, imediato, curto, visual, à educação mais informal, ligada à exposição contínua, sistemática, a ambientes apropriados à formação cultural, sem preconceitos de qualquer ordem. E ainda que no atual ambiente político do país constatação dessa ordem leve fácil ao desânimo e a densos temores é preciso insistir.

Há trabalho duro a ser feito na comunicação da ciência e em defesa da produção científica, no Brasil, garantida em 95% pelos grupos de pesquisa das universidades públicas. Mas não é menos exigente, ao contrário, o imenso trabalho a ser feito no campo da educação para que se possa, afinal, estabelecer um diálogo fecundo ciência-sociedade, em lugar de nossa já muito longa conversa de surdos. Para que a ciência faça parte da cultura brasileira.

Carlos Vogt

Poeta e linguista, presidente do conselho científico e cultural do Instituto de Estudos Avançados, da Unicamp, ex-reitor da Unicamp (1990-1994) e ex-presidente da Fapesp (2002-2007)

Mariluce Moura

Jornalista, professora titular da Universidade Federal da Bahia, coordenadora do projeto Ciência na Rua e criadora e ex-diretora da revista Pesquisa Fapesp (1995-2014)

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