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André Sturm

Cinema brasileiro, precisa?

Lá fora, audiovisual é entendido como estratégico

O cineasta André Sturm, ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo
O cineasta André Sturm, ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo - Marcus Leoni - 2.out.18/Folhapress

O presidente Jair Bolsonaro declarou na última quinta-feira (25) que o cinema brasileiro não precisa de dinheiro público

Esse raciocínio tem sido manifestado em vários ambientes desde o início deste ano. Quem ouve isso e tem posição liberal deve pensar que faz sentido. Afinal, a produção audiovisual é uma atividade privada. “Só no Brasil o Estado sustenta o cinema”, dizem por aí. Só que não.

No mundo ocidental, o audiovisual é entendido como estratégico e conta com participação pública. Por meio de recursos diretos, incentivos fiscais ou investimento, os Estados apoiam suas indústrias. 
Na França, país mais bem-sucedido na tarefa, desde 1947 existe uma política de Estado. Muda governo, mas a política é mantida. Na Alemanha, cada televisor vendido tem um valor destinado a um fundo de apoio à produção de filmes. 

E nos EUA, pátria do liberalismo e maior potência na área? Nem se fala. 

Nos anos 1920, a indústria de Hollywood enfrentava dificuldade para entrar em mercados europeus, que tinham produção forte e proteções contra o produto americano. Os produtores foram ao presidente pedir apoio. Um assessor, durante a reunião, disse que o tema era privado, não do governo. Hoover respondeu que pelo contrário. O cinema era, sim, assunto de Estado, pois onde entravam os filmes atrás entravam carros, roupas e outros artigos do país. 

O escritório da MPA (entidade privada dos produtores de cinema) passou a funcionar na Casa Branca, onde ficou até os anos 1990. 

Após a Segunda Guerra, no Plano Marshall, de apoio à reconstrução dos países europeus, havia uma cláusula que proibia qualquer restrição à entrada de filmes dos EUA. 

Foi assim que, sem dar um tiro, eles se tornaram a potência dominante na segunda metade do século. Ganhando corações e mentes. 

Por que no mundo inteiro as pessoas usam calça jeans, comem hambúrguer e ouvem rock? Foi a maciça presença dos filmes que levou a cultura e, por consequência, os hábitos de consumo americanos ao mundo. 

Quanto valeu a imagem de James Dean na promoção do jeans, do cigarro, dos carros e de um estilo de vida para os jovens daquela geração? 

Em diversos estados americanos existem fortes incentivos fiscais para que os produtores filmem lá. No Brasil, quantos setores da indústria dependem de recursos públicos? Quanto recebem as empresas da Sudene e Suframa? São regiões onde o país entende ser estratégico estimular a presença de empresas e, por isso, há os incentivos. 

Quando um brasileiro compra um ingresso para um filme nacional, deixamos de enviar divisas para fora do país. Centenas de empregos, negócios e impostos estão no ingresso. 

E o recurso? Criada em 2001, a Condecine é uma taxa cobrada das empresas que exploram filmes no país. A contribuição tem uma destinação especifica: o Fundo Setorial do Audiovisual. Daí sai o recurso que viabiliza 90% da produção nacional, não do orçamento público. Não é dinheiro que deixa de ir para hospitais e outros serviços. Portanto, é a exploração de filmes que gera o recurso para o cinema nacional

Queremos ser eternamente influenciados pelas culturas estrangeiras ou vamos mostrar aos brasileiros e, em especial aos jovens, nosso país, com nossas ideias, valores e história? O Brasil é o país da criatividade. Precisamos assumir nosso protagonismo. Podemos e devemos ser donos de nossa história!

 
André Sturm

Cineasta, diretor do Petra Belas Artes, ex-secretário municipal de Cultura de São Paulo (2017-2019) e ex-diretor-geral do Museu da Imagem e do Som (MIS)

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