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Rogério Cezar de Cerqueira Leite

De volta do futuro

O que revelam extratos de jornais de 2033

O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, membro do Conselho Editorial da Folha
O físico Rogério Cezar de Cerqueira Leite, membro do Conselho Editorial da Folha - Keiny Andrade - 29.mar.17/Folhapress
Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Foi por meio de uma “dobra no tempo” que obtive as informações aqui reveladas. Vêm dos extratos de jornais do ano 2033. Eis algumas mudanças que inferi dessas notícias.

1. O Supremo Tribunal de Justiça havia acolhido algumas atribuições adicionais. Com a inclusão de novos ministros, pastores de igrejas pentecostais, que se tornaram majoritários neste tribunal, ele havia assumido novas responsabilidades e consequentemente mudado a denominação para Supremo Tribunal de Justiça e Inquisição. Com isso, havia conseguido eliminar o comunismo, o petismo, os movimentos LGBT, feministas de quase todas as instâncias governamentais.

2. As universidades públicas haviam sido privatizadas, cursos inúteis e perversos como filosofia, sociologia e ciências políticas haviam sido substituídos por moral e cívica (dados por militares da reserva especialmente dotados), tiro ao alvo, educação física, astrologia e estudo da Bíblia. Currículos haviam sido elaborados e ampliados por especialistas. Tiro ao alvo, por exemplo, se dividia em várias etapas: tiro a alvos fixos, tiro a alvos móveis, tiro ao pombo, tiro a comunistas e petistas etc. Aliás, cursos iniciais de tiro seriam dados a alunos a partir dos cinco anos de idade, mas só para legítima defesa.

3. O Ministério das Relações Exteriores passou a ser chamado Ministério de Relações Exteriores e Propagação da Fé. Embaixadores, cônsules e outros diplomatas teriam que ser praticantes e apoiados por uma igreja pentecostal. O ministro teria que ter o título de bispo. Sob este aspecto não houve mudança significativa, apenas formal.

4. O Ministério do Meio Ambiente promoveria viagens turísticas a reservas de mata amazônica. Uma fila imensa de turistas ecológicos se acumulava junto às portas de entrada da reserva que se estendia por dez hectares, ou seja, 20 campos de futebol, e que, segundo informações oficiais, abrigava um casal de tucanos e três saimiris (macacos-de-cheiro). No entorno, milhões de hectares de pastagens e plantações de soja para alimentar os porcos da China. Ao lado, um museu com onças e caititus empalhados.

5. As milícias haviam acabado com a baderna. Haviam pacificamente dividido o Brasil em zonas. A polícia se recolhera aos quartéis. A tortura fora reduzida ao essencial. E por um preço módico poderia ter o cidadão segurança em sua casa.

6. Uma notícia alvissareira foi a de que havia sido encontrada enfim uma nova aplicação para o nióbio, metal de que o Brasil é rico. Foram banidos todos os materiais, tais como ouro, resinas e porcelanas, que servem para preenchimento de buracos devidos a cáries de dentes, e substituídos pelo negro e reluzente metal. Além disso, como o grafeno pode ser obtido de qualquer material orgânico, com o que o Brasil não teria vantagem competitiva alguma, pudemos desenvolver uma fonte única de carbono, elemento do qual é constituído o grafeno. Cientistas brasileiros teriam sido os primeiros a produzir grafeno do flato do macaco barrigudo em cativeiro.

Pois bem, após estas deprimentes experiências, aos poucos comecei a acreditar que teriam sido não mais que um pesadelo. Mas eis que me acode uma preocupação: o pesadelo de um pode bem ser o sonho de outrem.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Físico, professor emérito da Unicamp, membro do Conselho Editorial da Folha e presidente do Conselho de Administração do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais)

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