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Cicero Sandroni

Esperança?

Substantivo marca a nossa história desde 1500

O jornalista Cicero Sandroni
O jornalista Cicero Sandroni - Raquel Cunha - 24.nov.18/Folhapress
Cicero Sandroni

Escrito por Paulo Pontes, músicas de Antonio Maria e Dolores Duran e direção de Bibi Ferreira, o espetáculo “Brasileiro, Profissão: Esperança”, com Clara Nunes e Paulo Gracindo, levou o espectador de 1973 por uma viagem no tempo aos anos que precederam o golpe de 1964. 

No pior momento do regime, os profissionais da esperança na plateia recordavam aquele decênio. De acordo com o clichê, éramos felizes e não sabíamos. Militares nos quartéis, liberdade de imprensa, democracia imperfeita, mas em processo, bossa nova, cinema novo, campeões do mundo no futebol, esperava-se que o melhor ainda estava por vir. Não se imaginava que o retrocesso bateria à porta, mais adiante, para engolir o futuro. 

Derivado do verbo esperar, o substantivo marca a nossa história desde o achamento da terra quando os nativos esperavam conviver em paz com os recém-chegados às suas praias. Vã esperança, e da mesma forma a dos achadores, na tentativa de escravizá-los. E à rebeldia seguiu-se o genocídio, ainda em andamento. 

Desde então, esperamos 322 anos até a independência política, 388 anos para acabar com a escravidão, 389 anos para a República, 422 anos para ter universidade (a do Brasil, em 1922), 15 anos para o fim da ditadura de Vargas e 25 anos para o término da ditadura de 1964. E quanto tempo para acabar com a inflação herdada da colônia?

Hoje 13 milhões de brasileiros sofrem em busca de emprego. Outros milhões desistiram de procurar, viram camelôs ou arranjam bicos na terra considerada por Américo Vespúcio algo parecido com o paraíso terrestre ao desembarcar no litoral de Cabo Frio em 1502.

Tudo bem, ainda esperamos o país do futuro imaginado por Stefan Zweig. E por que não ufanar-se do Brasil com o conde Afonso Celso? “Criança! Não verás nenhum país como este!”, exaltava Olavo Bilac, deitado eternamente em berço esplêndido do hino nacional.

Apesar dos insultos, desaforos, ameaças e agressões que correm pela rede, o brasileiro é o homem cordial, assim descrito por Sergio Buarque de Holanda. E, para rematar, a frase definidora da história imobilista e corrupta do Brasil: “Tem que manter isso, viu?”.

Para manter isso e nada mais do que isso, o governo governa. Na cena brasileira permanecem a mortalidade infantil, o desmatamento ilegal da Amazônia, a desigualdade econômica e o trabalho de menores, hoje já erradicado em quase todo o mundo. 

E mais do que isso. Aqui o sistema cruel recebe elogio e incentivo do presidente ao afirmar que trabalhou desde os nove anos de idade e prosperou na vida. No mínimo, agravo à Declaração Universal dos Direitos da Criança, adotada pela ONU e ratificada pelo Brasil em 1959. 

O garoto Jair não foi o único no seu tempo a trabalhar aos nove anos de idade. Não seria no presente e tão pouco no futuro próximo. A ausência de menores nas escolas configura flagelo social endêmico. Cada criança no seu eito é vítima da sociedade feroz. Se contadas aos milhões, a vítima é o Brasil. 

Que esperança pode-se ter no país em que meninos e meninas trabalham em vez de frequentar escolas e o presidente da República bate palmas para essa desgraça?

Cicero Sandroni

Jornalista e membro da Academia Brasileira de Letras

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