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Alfredo Sirkis

A explosão do desmate

Preocupação com clima e biodiversidade não é coisa de comunista

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O escritor e jornalista Alfredo Sirkis, diretor do Centro Brasil no Clima - Pedro Ladeira - 05.set.18/Folhapress
Alfredo Sirkis
São Paulo

O confronto com doadores, como Alemanha e Noruega; o aumento de mais de 273% do desmatamento na Amazônia —em julho deste ano, se comparado com o mesmo mês de 2018—; o avanço das invasões na terra indígena ianomâmi, com a poluição de seus rios com mercúrio; e a degola no INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) —como forma de “quebrar o termômetro”, no tolo afã de esconder a febre— são episódios tresloucados.

Com mais 5% de destruição adicional da Amazônia poderemos engendrar mudanças irreversíveis, afetando o regime de chuvas no resto do país. Enchentes, desertificação, riscos para a agricultura, ventos extremos, invasão de zonas litorâneas pelo mar e ondas de calor compõem o drama anunciado das mudanças climáticas.

Por outro lado, a ação de descarbonização global oferece ao Brasil oportunidades econômicas —desde que saibamos usar e negociar com inteligência os imensos serviços ambientais que ofertamos, as nossas vantagens em agricultura de baixo carbono e energias limpas e a grande disponibilidade de área para reflorestamento, produzindo emissões negativas.

As invectivas e a desinformação grosseira de Jair Bolsonaro (PSL) silenciam aqueles no seu governo que percebem os dados da equação. A mudança climática é insofismável: os terríveis ciclones em Moçambique, afetando 3 milhões de pessoas, e a onda de calor que chegou a 46 ºC em Nantes, na França, são advertências do por vir. O ano de 2019 será o mais quente jamais experimentado pela humanidade.

 O último relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), ligado à ONU, tratou de limitar o avanço da temperatura do planeta em 1,5 ºC até o final deste século. O documento menciona a necessidade de reflorestar uma área do tamanho do território dos EUA.

O Brasil tem pelo menos 60 milhões de hectares de pasto degradado para reflorestamento, tanto de recomposição como econômico. Tem sol e vento abundantes para energias limpas, biocombustíveis e possui técnicas pioneiras de agricultura de baixo carbono. Por que, então, essa sanha de destruição?

Não é agronegócio moderno desmatar ilegalmente, promover a grilagem e uma pecuária indigente, de propósito meramente especulativo, ou envenenar rios com mercúrio. São facções criminosas, e o problema está no colo do ministro Sergio Moro (Justiça).


O agronegócio tem muito a perder com a repercussão internacional do novo surto de devastação, turbinado pela desmoralização oficial dos órgãos de fiscalização, pela sinalização de “liberou geral” pelo “capitão motosserra”.

Entre 2004 e 2012, o Brasil conseguiu diminuir o desmatamento na Amazônia de 27 mil km2 para menos de 5 mil km2, reduzindo as emissões de CO2 em cerca de 80% —mais do que em qualquer outro país. Agora, o desmate volta a subir, e a todo vapor. Até onde irá?

Bolsonaro tem raiva do tema, que acredita ser “de esquerda”. Mas quem foram seus pioneiros no Brasil? Militares como o marechal Cândido Rondon, uma vida em defesa do índio; o major Manuel Archer, que promoveu o maior reflorestamento urbano feito até hoje, no maciço da Tijuca, no final do século 19; e o almirante Ibsen Gusmão. Sem falar de Paulo Nogueira Batista, Marcello de Ipanema e outros que dificilmente podem ser considerados “esquerdopatas” dentro do seu besteirol idiossincrático. 

Não, a preocupação com clima e biodiversidade não é “coisa de comunista”. É nossa responsabilidade diante da geração de nossos filhos, netos e bisnetos, ameaçados por consequências catastróficas que ainda podem ser contidas, mas numa janela de oportunidade que está se fechando. Rapidamente.

Alfredo Sirkis

Escritor, jornalista e diretor do Centro Brasil no Clima

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