Descrição de chapéu

Borboletas psicodélicas

Há nomes de todos os tipos nas ruas paulistanas, mas são poucos os de mulheres

Rua Dona Maria Paula, na Bela Vista, a primeira batizada em homenagem a uma mulher em São Paulo - Eduardo Anizelli/Folhapress

O título acima, acredite, é o nome de uma das 45.717 ruas e outras vias de São Paulo. Fica no Jabaquara.

A cidade também tem lugar para uma travessa Nem Ouro Nem Prata, onde foi detido, para espanto dos paulistanos, um dos suspeitos pelo roubo de 719 quilos do metal precioso no aeroporto de Cumbica.

Nos anos 1970, quando a metrópole inchava, metade das ruas, praças e avenidas nem mesmo tinha nome próprio. Tais locais eram identificados por letras e números, um convite para confusões. Imagine uma correspondência destinada ao morador da rua A s/n.

Criou-se em 1975 uma comissão de 32 pessoas —estudantes, precisamente— para inventar 25 mil nomes. Valia de tudo, de enciclopédias a listas de músicas e artistas.

Arreio de Prata, Beleza Pura, Chuva e Sol, Dança das Borboletas, Corre-Corre, Canção Agalopada, Chão de Giz, Luz e Sombra e Azul da Cor do Mar: eis algumas das denominações de então que ainda adornam placas azuis em esquinas.

Nem tudo soa a cancioneiro e poesia, entretanto, quando se trata de batizar logradouros.

No Parque Novo Mundo, zona norte, surgiu um enclave verde-oliva, para honrar a memória de combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na Segunda Guerra Mundial. Isso legou à região da Vila Maria o maior percentual de ruas com nomes masculinos associados a patentes militares, de soldado a general.

Durante a ditadura de 1964-1985, quase um quinto das ruas novas homenageava as Forças Armadas. Na região central desponta a avenida General Olímpio da Silveira, governador do Acre no início do século 20, sobre a qual serpenteava até 2016 o elevado Costa e Silva, general que governou de 1967 a 1968.

O Minhocão, como é mais conhecido o viaduto que muitos querem ver demolido ou transformado em parque, teve as placas trocadas para Presidente João Goulart, defenestrado pelo golpe militar de 1964.

O desafio permanece. Só no ano passado houve por nomear 214 ruas recém-oficializadas, quatro por semana. Trabalho para a Coordenação de Denominação de Logradouros e Próprios Municipais, que conta com quatro funcionários para analisar os nomes sugeridos por vereadores e munícipes.

Apenas 16% das ruas, praças e avenidas ostentam nomes de mulher. E a maioria é de santas de fato —isto é, as reconhecidas pela Igreja Católica. Dar prioridade para homenagens a engenheiras, juízas, escritoras, médicas e outras profissionais seria uma forma de redimir pecados do passado, como o das Borboletas Psicodélicas.

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