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Ana G. Hounie e Milena Pereira Pondé

É preciso avançar nos estudos da cannabis medicinal

Uso médico da planta é muito diferente da maconha traficada

Cannabis medicinal cultivada em casa, em São Paulo; família extrai o óleo para tratar filha adolescente com síndrome de Dravet - Karime Xavier - 12.jan.17/Folhapress
Ana G. Hounie Milena Pereira Pondé

É imperativo clarificar este tema, já que o uso medicinal da cannabis, tanto do canabidiol (CBD) quanto do THC, fazem parte de vasta literatura médica no Brasil e no mundo. Temos estudos nacionais a partir de 1973, com os farmacologistas Isac kaniol e Carlini, seguidos de estudos clínicos com Zuardi e outros autores, relatando eficácia terapêutica e segurança no uso em estudos experimentais e clínicos.

Embora uma parte da sociedade seja a favor da liberação da cannabis recreativa, uma grande parte dos médicos e seus pacientes defende a liberação da cannabis apenas para uso medicinal, dada a crescente literatura que ampara o uso numa enorme variedade de doenças graves e muitas vezes sem tratamento disponível ou refratários aos tratamentos convencionais, tais como doenças neurodegenerativas e neuropsiquiátricas (Huntington, Alzheimer, demência frontotemporal, esclerose lateral amiotrófica, esclerose múltipla, epilepsia, Tourette, autismo, depressão e Parkinson refratários, câncer e doenças autoimunes, entre outras doenças crônicas e intratáveis.

A eficácia nesta gama de doenças deve-se à existência do sistema endocanabinoides (SEC), um mecanismo de regulação homeostática, que auxilia na manutenção do equilíbrio fisiológico e  que vem sendo desvendado desde a década de 1960. O SEC regula todos os outros sistemas: hormonal, imunológico e neurotransmissores, entre outros.

A cannabis tem centenas de compostos terapêuticos, entre canabinoides, terpenos e flavonoides. O único composto da cannabis que tem risco de causar prejuízo —em pessoas geneticamente predispostas ou em cérebros em desenvolvimento— é o THC. 

Mesmo assim, se dado em conjunto com o CBD (canabidiol), seus efeitos deletérios são minimizados. Embora o CBD seja o canabinoide mais estudado dentre os mais de 140 já identificados, há alguns com efeito terapêutico já identificado: THCA, CBDA, CBDV e CBG, por exemplo. 

Ao contrário da opinião do ministro Osmar Terra (Cidadania) nesta Folha, o THC tem efeitos terapêuticos muito claros. Afirmar que somente um dos canabinoides tem efeito benéfico é uma opinião enviesada e desatualizada de quem é a favor apenas do canabidiol sintético, este sim parte da milionária indústria farmacêutica que se beneficia e beneficia lobistas.

Apesar da opinião do colega ministro, os extratos de cannabis medicinal produzidos no Brasil são dez vezes mais baratos e eficazes, pois são extratos puros da planta, com todo o espectro de canabinoides agindo em sintonia para uma melhor função, o chamado efeito comitiva.

Finalmente, para dar o benefício da dúvida em relação à motivação do posicionamento do ministro, esclarecemos que o uso médico da cannabis é muito diferente da maconha traficada. A segunda é geneticamente modificada para ter alta concentração de THC, sem CBD, provém do tráfico e não sabemos sua origem —se é orgânica ou se está misturada com outras substâncias ilícitas. 

Qualquer médico que defenda esse uso não estará respeitando o juramento que fez a Hipócrates. Já a cannabis preparada com fins terapêuticos, cultivada sem agrotóxicos, preparada com rigor e controle de qualidade, com conhecimento de seus compostos para que possam ser prescritos de acordo com a patologia a ser tratada, após avaliação médica responsável, é de grande utilidade para diversas famílias que convivem com o sofrimento de entes queridos vítimas de doenças graves, incapacitantes, muitas vezes lentamente letais.

Ana G. Hounie

Psiquiatra, doutora e pós-doutora pela Faculdade de Medicina da USP e prescritora de cannabis com fins medicinais há três anos

Milena Pereira Pondé

Psiquiatra, professora-adjunta de psicofarmacologia da Escola Bahiana de Medicina e doutora em saúde coletiva pela UFBA; tem pós-doutorado na área de autismo na Divisão Psicossocial da McGill University (Canadá)

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