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Usos e abusos da terra

O governo brasileiro não cessa de lançar combustível contra o meio ambiente

Área de pasto queimado às margens da BR-319 próximo a Humaitá, no sul do Amazonas
Área de pasto queimado às margens da BR-319 próximo a Humaitá, no sul do Amazonas - Lalo de Almeida - 11.ago.2018/Folhapress

O Painel Intergovernamental sobre Mudança do Clima (IPCC, em inglês), um órgão do sistema da ONU, publicou na quinta-feira (8) um novo e importante relatório compilando informações científicas sobre o aquecimento global. Desta vez, seu foco recaiu sobre a contribuição dos usos da terra para mitigar ou agravar a crise do clima.

Um pedaço do planeta estar coberto por plantações, pastos ou matas tem consequências para a concentração de gases que aceleram o efeito estufa e, assim, para a temperatura da atmosfera.

Uma floresta em crescimento absorve gás carbônico. Além disso, diminui a temperatura atmosférica acima dela por meio da evapotranspiração, como se fosse um ar-condicionado. Derrubada, lança carbono no ar, realimentando a espiral de aquecimento.

Um campo cultivado e até um pasto bem manejado estocam mais carbono que o solo nu. Florestas plantadas ou áreas degradadas em regeneração sequestram carbono e, portanto, contribuem para arrefecer o processo global.

A pecuária e a utilização de máquinas e fertilizantes também influenciam esse fluxo de gases-estufa. Tudo somado e subtraído, diz o IPCC, o uso da terra e suas mudanças (de floresta para pastagem, por exemplo) respondem por 23% das emissões mundiais de carbono.

Parece evidente que os setores agrícola e florestal têm uma enorme contribuição a dar para mitigar a emergência que arrisca tornar cada vez mais frequentes os eventos climáticos extremos, como secas, ondas de calor e inundações.

Tal constatação representa tanto uma oportunidade para os países menos ricos quanto seu interesse, porque os piores impactos vão se abater sobre suas populações.

O relatório alerta, contudo, que é preciso fazer muito mais, mobilizando outras áreas da indústria humana, sobretudo nas de transportes e geração de energia. Claramente, o maior esforço cabe aqui às maiores potências, China inclusive.

O Brasil se acha em posição privilegiada. Conta com enorme espaço para aumentar a produtividade da agropecuária sem seguir expandindo a área de cultivo e pastagem. Apesar disso, o desmatamento está em recrudescimento (dados preliminares indicam avanço em torno de 50% de 2018 para 2019).

O governo de Jair Bolsonaro (PSL), entretanto, não cessa de lançar combustível nessa queimada. Manietou o Ibama e promoveu uma intervenção no Inpe, o que incentiva grileiros, madeireiros ilegais e fazendeiros imediatistas a desencadear um ataque às florestas que não interessa ao país.

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