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Paulo Renato Bentivegna

Violência e solidariedade: paradoxos

Ao carimbar pessoas, perde-se a percepção humana

Torcedores do Palmeiras entram em confronto com a PM, em São Paulo, antes de partida contra o rival Corinthians - Miguel Schincarion - 08.fev.15/Folhapress
Paulo Renato Bentivegna

Violência vem do latim “violentia”, que significa veemência, impetuosidade, e do italiano “violare”, violação. A violência está intrinsecamente ligada à cultura —cultura essa que está a serviço da vida humana, e o paradoxo é que ela promove as condições tanto da vida quanto da violência. A violência não pode ser radicalmente eliminada da cultura.

De maneira simples, uma pessoa pode ser caracterizada por uma tríade: 1 - um modo particular de pensar; 2 - um modo particular de desejar; 3 - um modo particular de sentir, que inclui o gostar.
Respeito vem do latim “res spectare”. “Res”, a coisa, o fato, e “spectare”, ver —ou seja, “ver o fato”, que é a tríade que caracteriza uma pessoa, e aceitar que o outro seja o que ele é, com as concordâncias e as diferenças do pensar, do desejar, do sentir e do gostar. Dessa tríade surge uma ação.

O pensar é muito complexo e pode estar tomado por uma posição ideológica, que é uma disposição permanente do espírito humano e que não se define unicamente pelo seu conteúdo, mas também por uma posição mental específica e recorrente. 

A posição ideológica apresenta três componentes: 1 - uma ideia onipotente que ocupa o lugar do princípio da realidade; 2 - um ideal; 3 - a existência de um ídolo, quase uma divindade. Há uma fidelidade imperativa a esses três componentes. A posição ideológica é um dispositivo antipensamento. A ideologia se edifica contra a dúvida.

Penso que um dos grandes problemas da humanidade se chama carimbo. Carimba-se as pessoas, e assim se perde a percepção do ser humano que aí está. E o carimbo traz penumbras não muito saudáveis. Quando um grupo de torcedores de um time de futebol A carimba o grupo de torcedores do time B com adjetivos depreciativos, prevalecendo uma ideologia grupal, onde ocorrem alianças inconscientes baseadas na inveja, na negação, no não pensar, pode surgir o ódio, a agressividade —até com uma ação assassina, como fazer emboscadas no metrô. 

Não se vê mais o ser humano. O grupo age para não pensar nas angústias inerentes às diferenças. Algo semelhante ocorre no incentivo às guerras, onde um povo é visto como perigoso, ameaçador e que precisa ser destruído, algo comum em tantos momentos da história humana. 

E o que não dizer da horrível limpeza étnica? É claro que se pode falar de uma pessoa por sua nacionalidade, cor, partido político, time de futebol, ideias em diferentes campos e religião, mas sem a intensidade do carimbo que nos faz perder a percepção do ser humano total e complexo que é o outro. 
Posso, por exemplo, dizer: “Aquela pessoa, que eu conheço, é adepto da religião muçulmana”. Ou: “Esse cara é um muçulmano”, onde as palavras e o tom emocional denotam profundezas sombrias! 

É preciso cuidado para se falar de três assuntos: política, futebol e religião, que, via de regra, mobilizam a posição ideológica fanática e onipotente. Do ponto de vista técnico, também é preciso paciência para desfazer essas idealizações, principalmente na relação transferencial, para que o analisando possa, pouco a pouco, ter mais suportabilidade do sofrimento psíquico, sem que o “self” se desestruture —ver a realidade de que ninguém é perfeito, nem ele nem o psicanalista.

Falemos agora sobre solidariedade, um sentimento de identificação com o sofrimento dos outros. É reconhecer a situação delicada de uma pessoa ou de um grupo social e o ato de ajudar essas pessoas desamparadas. Creio que há pessoas realmente com uma grande capacidade de amar, que são generosas e que se manifestam com solidariedade para com os outros. 

Mas, também por trás da solidariedade, esconde-se a projeção das partes necessitadas nos outros e os pequenos desejos narcísicos de aplausos, de reconhecimento, que são desejos humanos em todos nós  —e que de maneira alguma são impeditivos da solidariedade.

Paulo Renato Bentivegna

Psiquiatra, membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e da International Psychoanalytical Association

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