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Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Amazônia: por que fazer um sínodo?

Igreja deve alertar sobre a exploração irracional

Dom Walmor Oliveira de Azevedo, presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) - 06.mai.19/Arquivo Arquidiocese de BH
Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Respostas constroem o diálogo, desfazem ruídos, fomentam a aproximação e contribuem para entendimentos. Torna-se, pois, oportuno, nesta semana em que celebramos o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, dedicar-se à seguinte pergunta: por que fazer um sínodo, o Sínodo da Amazônia, convocado pelo papa Francisco, a ser realizado em outubro deste ano? Trata-se de acontecimento com repercussões e indicações para a vida e a missão da Igreja Católica, fortalecendo-a ainda mais no anúncio do Evangelho, na promoção da vida.

Instrumento de trabalho, o sínodo faz parte da vida da Igreja desde o Concílio Vaticano 2º, realizado de 1962 a 1965. O papa Francisco renova a compreensão a respeito do sínodo ao afirmar que é um instrumento privilegiado de escuta do povo de Deus. Seus participantes, convocados pelo pontífice, estão abertos à ação do Espírito Santo e buscam novos caminhos para a evangelização. É oportunidade para se dedicar a questões que dizem respeito à tarefa missionária da Igreja Católica em todo o mundo. Por isso, acolhendo apelos dos bispos servidores na Amazônia, o papa Francisco, sempre zeloso por toda a Igreja, convocou o Sínodo dos Bispos para a Amazônia há dois anos —em outubro de 2017.


A motivação fundamental é avaliar a atuação e a presença missionária da Igreja na Amazônia para cumprir melhor a sua missão —anunciar o Evangelho, configurando uma presença que, cada vez mais, promove grandes heranças culturais. É próprio da Igreja contribuir com a humanidade em importantes áreas: artes e arquitetura; educação formal, com escolas e universidades; e ação social, constituindo uma rede de serviços à vida, especialmente dedicados aos pobres e desamparados. Tudo para impulsionar e qualificar o exercício da cidadania, a colaboração para construir uma sociedade justa à luz da fé.

A Pan-Amazônia, região do mundo que abrange nove países da América Latina, tem presença maior no território brasileiro. O Estado brasileiro é proprietário da maior parte dessa região. 

Esse território tem presença histórica da Igreja Católica, que se dedica a cumprir o que pede Jesus, seu Mestre e Senhor: “Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações” (Mateus 28,19). Ao se dedicar à evangelização na Amazônia, a Igreja olha para si e para a vida, revê sua história, contempla o meio ambiente e o povo —o povo de Deus. 


Nesse horizonte estão os parâmetros de uma ecologia integral, indicações pertinentes do papa Francisco, delineadas na sua Carta Encíclica sobre a Casa Comum. Inclui uma compreensão que gere novos hábitos e costumes para tratar adequadamente o patrimônio ambiental —com riquezas impressionantes na fauna, na flora e nos recursos minerais, em interface com a vida e a história, tradições e valores religiosos de povos tradicionais.

A Igreja reconhece e defende a soberania nacional sobre a Amazônia. Entende que a nação brasileira deve cultivar consciência amadurecida para tratar essa região como dom da criação de Deus, um bem de seu povo, na contramão das tiranias advindas da idolatria do dinheiro. 

A Igreja se coloca, humildemente, na condição de servidora. É sensível aos anseios dos povos, especialmente dos pobres, sem qualquer motivação ligada a interesses políticos ou econômicos. A Igreja tem o dever de alertar sobre as consequências da exploração irracional da Amazônia: níveis de 4 °C de aquecimento, ou um desmatamento de 40%, constituem “pontos de inflexão” do bioma amazônico rumo à desertificação, o que significa a transição para uma nova condição biológica, geralmente irreversível. E é preocupante que, atualmente, já nos encontramos entre 15% e 20% de desmatamento.

Em 2016, o papa Francisco já advertia em sua mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado com a Criação: “Não podemos nos render ou ficar indiferentes perante a perda da biodiversidade e da destruição dos ecossistemas, muitas vezes provocadas pelos nossos comportamentos irresponsáveis e egoístas”. Por isso mesmo, com o espírito do diálogo, de cooperação, em comunhão pelo bem comum, a Igreja e toda a sociedade devem aceitar o convite para participar e colaborar com o Sínodo da Amazônia, fazer de sua realização alavanca capaz de promover o bem da civilização. Essa é a resposta para a pergunta: por que fazer um sínodo?

Dom Walmor Oliveira de Azevedo

Arcebispo de Belo Horizonte e presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil)

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