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Mais turbulência

Operação da PF que mirou líder do governo no Senado eleva desconfiança política

Polícia Federal faz operação de busca e apreensão no gabinete da liderança do governo no Senado - Pedro Ladeira/Folhapress

O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE), sobressai como rara liderança funcional aliada ao Palácio do Planalto. Tal condição amplia as repercussões da operação da Polícia Federal que vasculhou os gabinetes do parlamentar e de seu filho, deputado pelo mesmo partido. 

Jair Bolsonaro (PSL) ascendeu à Presidência na esteira das tensões entre o aparato jurídico-policial e o mundo político. No poder, entretanto, trata de enfraquecer os órgãos de controle e investigação.

O advogado do senador insinuou que a operação policial, batizada de Desintegração, seria uma retaliação contra críticas de seu cliente a abusos de instituições como a PF e o Ministério Público. No Congresso, difundiu-se a tese de que as pressões de Bolsonaro sobre nomeações na PF teria provocado uma represália da corporação.

Sejam quais forem as razões dos envolvidos, nota-se o ambiente carregado. Tais desconfianças juntam-se a outras crises intestinas na articulação legislativa do governo, desde a origem em desarranjo.

Deputados da bancada evangélica criticam o recém-chegado ministro Luiz Eduardo Ramos, da Secretaria de Governo, encarregado da negociação parlamentar.

O PSL, partido do presidente, ignora o líder do governo na Câmara dos Deputados. No Senado, há embates na cúpula da legenda, que envolvem o próprio filho do presidente, senador Flávio Bolsonaro (RJ). 

Expoentes do Congresso veem com inquietude as atitudes do Planalto. No entorno do presidente, há quem promova campanhas virtuais de ataque aos interlocutores de Bolsonaro no Parlamento.

Não espantam, pois, as dificuldades do governo nesse ambiente, a despeito do avanço da reforma da Previdência. Decretos e vetos são derrubados, medidas provisórias caducam. A indefinição do governo quanto a seus projetos desorganiza ainda mais a negociação política, sem falar das expectativas dos cidadãos e das empresas. 

Falta diretriz clara para a reforma tributária, que dirá um projeto —perdeu-se tempo precioso com as idas e vindas em torno da descabida intenção de recriar a CPMF.

Do mesmo modo, não se sabe o que o governo pretende fazer a respeito das dúvidas relacionadas ao limite constitucional para os gastos federais. Na Câmara, há uma proposta para definir os ajustes em caso de descumprimento do teto, mas o Executivo não vai além de especulações sobre o tema.

O consenso básico na agenda nacional era a primazia da reforma previdenciária, que caminha para um desfecho favorável. A incerteza acerca dos próximos passos se agrava com as novas turbulências políticas e a aproximação das eleições municipais de 2020.

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