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Rogério Cezar de Cerqueira Leite

O negacionismo científico: ignorância ou infâmia

Cada árvore que se queima contribui para a morte

O físico e professor Rogério Cezar de Cerqueira Leite, membro do Conselho Editorial da Folha - Keiny Andrade - 30.mar.17/Folhapress
Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Depois de quase cinco décadas do primeiro alerta nacional, aliás posto nesta Folha, reaquece o debate na sociedade brasileira sobre o aquecimento global. Apesar da simplicidade e da certeza científica, nossas autoridades continuam a ignorar as inexoráveis calamidades a que o aquecimento global nos condena.

Aqui venho, pois, novamente tentar explicar por que não há escapatória para a humanidade senão a redução drástica de emissões de gases de efeito estufa

Comecemos do começo. Chama-se radiação do corpo negro o fenômeno básico envolvido no efeito estufa. Todo corpo que não esteja à temperatura zero absoluto, aquela em que não há movimento de seus átomos e/ou moléculas constituintes (aproximadamente 273 °C abaixo de zero), emite radiação eletromagnética. Quanto maior a temperatura do corpo, maior a intensidade e a frequência da radiação.

Como a superfície do Sol está a aproximadamente 5.000 °C, devido a reações nucleares em seu interior, a intensidade emitida é tão intensa e as frequências tão altas (da luz visível). Mas a Terra também emite radiação eletromagnética, pois está a temperaturas superiores ao zero absoluto. Essas emissões são, todavia, menos intensas e de frequência mais baixa. Chamamos esse intervalo de frequências de infravermelho.

Então, Terra e Sol emitem energia continuamente. Se a Terra não tivesse atmosfera, essa condição levaria a um equilíbrio. E cálculos mostram que a Terra, se não houvesse atmosfera, estaria a cerca de 80°C abaixo de zero, quando a energia emitida pela Terra igualasse aquela recebida do Sol. 

Consideremos agora uma molécula de dióxido de carbono (CO2) no caminho entre o Sol e a Terra. Medidas físicas mostram que essa molécula interage fortemente com os raios infravermelhos emitidos pela Terra, absorvendo-os e reemitindo-os em todas as direções, inclusive de volta para a Terra. A molécula de CO2 também interage com a luz solar, mas muito fracamente. 

Uma atmosfera composta de moléculas de CO2, e outras com o mesmo comportamento, permitirá passar a energia proveniente do Sol e devolver para a Terra —e vai necessariamente aquecê-la. É por isso que a temperatura média da Terra está acima dos 80 °C negativos. Viva o dióxido de carbono. Esse fenômeno é o que chamamos de efeito estufa. Ao aumentar a quantidade dessas moléculas, aumenta a retenção de energia da radiação infravermelha e, consequentemente, a temperatura da Terra.

Por outro lado, a queima de qualquer material orgânico, tais como carvão, petróleo e madeira, libera moléculas de dióxido de carbono e outras de efeito estufa, aumentando a retenção de calor. De fato, a atmosfera também se aquece, provocando desigualdades de densidade e consequentes movimentações, ou seja, ventos, tempestades etc. Mas o efeito estufa continua, pois o CO2 e outros gases não estão sendo removidos. E se está frio em Roma é por causa de vento e nuvens que não mudam a temperatura média da Terra. Será que há razões extrarracionais que abusam da ignorância e da burrice dos pobres de espírito?

A verdade é que esse negacionismo está matando gente e vai matar muito mais. Cada árvore que se queima na Amazônia contribui para a morte de um inocente. E a omissão do governo brasileiro é, portanto, um crime, principalmente se não for senão para agradar a bancada ruralista.

Rogério Cezar de Cerqueira Leite

Físico, professor emérito da Unicamp, membro do Conselho Editorial da Folha e presidente do Conselho de Administração do CNPEM (Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais)

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