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Clarissa De Franco

'O Silêncio dos Homens'

Vamos falar de como eles podem reescrever a história

Homens silenciados por pais violentos, mães machistas e amigos que cresceram como eles. Por piadas de “viado”, por “broders” que batem e apanham juntos, mas não se sentam juntos para contar sobre seus medos, vulnerabilidades e fracassos. Homens silenciados porque “papo de terapia” não é para eles. Porque precisam botar o pão (e o pau) na mesa, porque de homens se espera dar conta do recado.

Homens que reagem em vez de propor, que se calam porque “DRs” são chatas e as mulheres chatas que as promovem. Homens que foram meninos com brincadeiras de autoafirmação, com joguinhos competitivos e agressivos, que não levavam desaforos para casa. Garotos com a necessidade de provar que pegaram as minas, que quando broxam é porque a gata nem era tão gata, ou porque, sei lá, “prefiro não falar sobre isso”. Machos e seus “contos de foda”, como diria a funkeira trans Linn da Quebrada.

Clarissa De Franco - Psicóloga e doutora em ciência das religiões com pós-doutorado em estudos de gênero
A psicóloga Clarissa De Franco, especialista em estudos de gênero - Divulgação

Homens que fazem cerveja artesanal, mas outros artesanatos “aí, não, né?”. Que exibem seus músculos, mas começam a entender que precisam tomar certos cuidados com sua própria violência. Homens que até se modernizaram um pouco, “ajudam” as esposas com a louça e o uniforme das crianças. Mas que, claro, têm seus rituais de homem, como o futebol, né?

Homens que quando têm síndrome do pânico, depressão e outros transtornos psicológicos tardam ou nunca procuram ajuda. Que deixam suas próstatas chegarem ao câncer por falta de exames periódicos e medo da dedada. Que são os que mais se suicidam, matam e morrem, seja por acidente ou homicídio.
Homens brancos, porque os negros querem ascender socialmente com esmolas de cotas e bolsas, né?

Porque os indígenas são outro tipo de homem, “não são como a gente”. Já os gays, os trans, “não é que eu tenha preconceito, mas eles não são bem homens, né? Pertencem a uma outra categoria”. Ai, ai...

Homens com “h” minúsculo, perdidos em seus mundos individualizados, repetitivos e desatualizados diante da organização mundial das mulheres. Que ficaram aí, em um entre lugar social, sem uma adequada reflexão sobre suas masculinidades, sobre o que é ser homem nesse momento histórico, sobre como melhorar o ser homem daqui para frente.

Alguns gatos pingados se juntam às mulheres e às reivindicações de gênero. Poucos são os homens que transitam, seja porque são transgêneros, homossexuais e já sofreram as consequências desse modelo machista ou simplesmente porque entenderam que viver é sobre se melhorar e melhorar o mundo, sobre buscar equiparar condições —porque, sem equilíbrio, não fica bom para ninguém.

Ismael dos Anjos é um dos idealizadores do documentário Silêncio dos Homens, sobre masculinidade - Karime Xavier - 29.ago.19/Folhapress

Com reflexões como essas foi lançado em agosto o documentário “O Silêncio dos Homens”, fruto de pesquisas com mais de 40 mil pessoas realizadas pelo grupo Papo de Homem, uma organização com iniciativas voltadas aos homens do mundo todo. Está disponibilizado online.

Vamos falar de homens, masculinidades e reequilíbrio de nossas relações. Porque gênero, como afirma a historiadora norte-americana Joan Scott, trata-se de relações de poder. E estava faltando que a parte com domínio nessas relações tomasse a sua tinta e viesse, junto, reescrever a história.

Clarissa De Franco

Psicóloga e doutora em ciência das religiões com pós-doutorado em estudos de gênero

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