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Maria Alice Setubal

Encontros ou fronteiras: o que está em jogo?

Brasil não pode ser reduzido a dois campos opostos

Após 30 anos de convivência democrática com políticas progressistas a partir da Constituinte de 1988, a crença das organizações da sociedade civil era que o país havia, senão superado, ao menos evoluído bastante em relação aos traços autoritários de uma sociedade patriarcal, hierárquica e violenta, que nos caracterizou ao longo da história. Não havia negação da necessidade de outras mudanças, mas certamente não nos demos conta do quanto ainda precisava ser trabalhado e reforçado no campo da institucionalização dos direitos e do fortalecimento da sociedade civil.

A falta de escuta, a ingenuidade ou a arrogância sobre ter a verdade para todas as políticas impediram o reconhecimento da complexidade da sociedade atual, que não pode ser reduzida a uma visão monolítica ou de apenas dois campos opostos.

A socióloga Maria Alice Setubal, a Neca, presidente do conselho da Fundação Tide Setubal - Reinaldo Canato - 10.jun.19/Folhapress

A rapidez das mudanças tecnológicas, o aparecimento das mídias sociais, a globalização e as crescentes desigualdades sociais no mundo e, especificamente, no Brasil, trazem para o cenário da esfera pública movimentos de revoltas e reivindicações de grupos que buscam ser reconhecidos, visibilizados e, sobretudo, respeitados, com direitos públicos garantidos e de qualidade na educação, na saúde e na cultura.

Há, porém, em parte da nossa sociedade, um sentimento de desordem, de falta de oportunidades. São pessoas que acreditam que a solução de problemas estruturais está no esforço e na conquista individual.

Nesse contexto, princípios norteadores do governo atual, pautados pela obediência, submissão e lealdade, encontram aderência, trazendo identificação com o conflito e a violência, presentes nos discursos, nas redes sociais e, sobretudo, em algumas leis, medidas provisórias e políticas governamentais. Somam-se a isso os ataques às ONGs e diferentes medidas que excluem a participação dos cidadãos nas decisões da democracia, coagindo a livre expressão nas diferentes instâncias sociais.

O cenário pode ser vivido como tempos de ausência de futuro e de sonhos, mas acredito serem tempos de reflexão e de reconstrução, com base na pluralidade democrática, pautada pela liberdade de pensamento, pela interação com o outro, pela busca de um mundo comum.

Acredito no papel das organizações da sociedade civil em quatro dimensões: 1 - romper com o olhar endógeno, voltado para dentro das instituições. É preciso escutar e buscar mais o contexto social, político, econômico e cultural, com a potência de seus atores; 2 - criar narrativas de comunicação para ampliar e estabelecer novos vínculos e conexões por meio de valores comuns; 3 - estar presente, atuar territorialmente e possibilitar experiências participativas nas quais os cidadãos sintam-se vistos, reconhecidos, respeitados e pertencentes localmente e, ao mesmo tempo, atravessados pelas questões da sociedade contemporânea global; 4 - advogar por projetos de leis e políticas, com base nessa presença, e da atuação na ponta, para subsidiar Legislativo e Executivo em novas propostas focadas na equidade e justiça social.

É ilusão acreditar no batalhador que vence sozinho. O desafio, creio, é sair de uma visão universal homogeneizante, superar as fronteiras e buscar o espaço em comum, de modo a reconstruir um tecido social extremamente esgarçado.

E também levar em conta o reconhecimento das múltiplas singularidades do cidadão e das organizações para iniciativas e ações de copertencimento, pautadas pelo respeito, para termos uma sociedade mais justa e sustentável. Essa pode ser uma utopia capaz de nos guiar na construção de uma ética do encontro.

Maria Alice Setubal

Doutora em psicologia da educação (PUC-SP), socióloga e presidente do conselho da Fundação Tide Setubal e do Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas)

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