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Rubens Barbosa

Mais instabilidade na fronteira do Brasil

O golpe não é contra Evo Morales, mas dele próprio

O movimento popular contra o resultado das eleições na Bolívia pode ser comparado a manifestações de frustração que estão ocorrendo em outros países, como Líbano, Iraque e Chile, por conta da insatisfação com a política, com a economia e com os problemas sociais. São ações organizadas por jovens, sem liderança política ou partidária. Cada país tem as suas especificidades. 

No caso da Bolívia, apesar do crescimento econômico dos últimos anos, tudo começou com a decisão de Evo Morales de se candidatar à Presidência pela quarta vez, depois de 14 anos no poder, contra as leis do país. Para superar esse pequeno detalhe, convocou plebiscito para contornar o impedimento e poder se candidatar; perdeu por 51% do votos. 

O embaixador Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior - Mathilde Missioneiro - 16.out.19/Folhapress

Os eleitores votaram negativamente, mas o seu partido, o MAS (Movimento para o Socialismo), alegando restrição aos direitos humanos do presidente (não há limites para uma pessoa candidatar-se a um cargo publico), apelou ao Tribunal Constitucional, que decidiu ser o resultado do plebiscito uma restrição aos direitos de Evo e reverteu a decisão popular. 

Logo as posições políticas radicalizaram-se, e as eleições foram realizadas em clima tenso. Cresceram os indícios de que Morales queria evitar o segundo turno. Os resultados iniciais mostravam que o líder boliviano não teria maioria para ganhar no primeiro turno. Subitamente, sem qualquer explicação, a apuração, com quase 85% dos votos tabulados, foi interrompida. Doze horas depois, quando retomada e concluída, o resultado, para surpresa geral, estava diferente, e Evo conseguiu abrir pequena margem, o que indicava vitória no primeiro turno. 

A partir dai, a contestação violenta dos resultados eleitorais, pela oposição e pela sociedade em geral, ganhou tal dimensão que a OEA (Organização dos Estados Americanos) decidiu enviar missão técnica para analisar a lisura das eleições. 

O relatório da OEA mostrou que, entre outros casos de fraude, 38% das urnas tinham mais votos do que eleitores registrados. Com a divulgação desses fatos, Morales (apoiado pela Rússia e por outros países) acusou a oposição e o empresariado de golpe e fez anúncio vago de convocação de novas eleições. Em virtude dos crescentes distúrbios em todo o país, as Forcas Armadas pediram publicamente a renúncia de Morales e, junto com a polícia, se recusaram a reprimir manifestações, barricadas, incêndios e depredações nas principais cidades da Bolívia.

Com a contestação crescendo, o presidente decidiu renunciar falando na convocação de novas eleições. Foi aí que algumas coisa estranhas aconteceram: o vice-presidente e os presidentes da Câmara e do Senado, sucessores constitucionais de Morales, também renunciaram, e o Tribunal Eleitoral foi dissolvido, deixando um vácuo de poder e uma grande incerteza quanto ao seu sucessor e à convocação da próxima eleição. Ao retirar-se para a sua base política, Evo encoraja milhares de mineiros e plantadores de coca a defender a vitória na eleição. Já anunciou que vai lutar.

Depois da eleição conturbada, as informações disponíveis confirmam a hipótese de golpe. Não contra Morales, mas dele próprio. Não está claro como superar o vazio de poder deixado pelas referidas renúncias. Evo Morales, populista e autoritário, pode tentar voltar ao poder nos braços dos mineiros (armados de dinamite) e dos plantadores de coca.

A instabilidade política em Santa Cruz de La Sierra, cidade próxima à fronteira com o Brasil, acrescenta mais um fator de insegurança ao nosso país. Agora, ao lado da fronteira com a Venezuela, a preocupação também passa a ser a Bolívia.

Rubens Barbosa

Diplomata, ex-embaixador do Brasil em Londres (1994-1999, governos Itamar e FHC) e em Washington (1999-2004, governos FHC e Lula) e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior

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