Descrição de chapéu
José Vicente da Silva Filho

A PM que salva

Culpar policiais por mortes em Paraisópolis é ilação

Quantos animais de cada espécie Moisés levou à arca para salvar do dilúvio? Dois ou quatro? Daniel Kahneman, prêmio Nobel (2002) por seus estudos sobre comportamento das pessoas em questões econômicas, apresenta essa aparente pegadinha para ilustrar como os sistemas de percepção de informações trapaceiam os julgamentos.

Muitos dos leitores deste artigo demoram para refazer sua conclusão de que não foi Moisés, mas Noé. Informações associadas, principalmente se forem próximas no espaço e no tempo, costumam gerar ilusões de lógica e podem levar a julgar um todo a partir dessas partes.

O coronel reformado da PM paulista Jose Vicente da Silva Filho, ex-secretário nacional de Segurança Pública - Divulgação

Não foi diferente com os fatos dramáticos das mortes de jovens no pancadão de Paraisópolis, no dia 15 de novembro. Vídeos postados com policiais estúpidos agredindo pessoas no que seria uma viela foram interpretados como emboscada que levou à morte das vítimas naquele local. Soube-se depois que havia ocorrido em outra favela e que estão sob rigorosa apuração, devendo engrossar as mais de três centenas de maus policiais demitidos por ano.

Como é de hábito nessas situações, levantam-se vozes contra a Polícia Militar paulista como um bando de violentos descontrolados. Acadêmicos da esquerda usam o incidente para recarregar o velho argumento da desmilitarização das PMs. Especialistas, desconhecendo nuances operacionais e padrões de procedimentos policiais, passam a recomendar a revisão de protocolos de operação da instituição. O que seriam esses protocolos, formulários reguladores ou registros de atos públicos (conforme o dicionário Aurélio)?

As ilações forçadas por reportagens, manifestações de especialistas, do ministro Sergio Moro (Justiça) e até da OEA (Organização dos Estados Americanos) afirmam ou sugerem que as mortes foram causadas por erros dos policiais, que houve tentativa desastrada de dispersar a multidão e, sobretudo, que toda a instituição está contaminada pelo despreparo e baixo compromisso com a cidadania.

Os fatos mostram que nada disso é verdade. São raros os registros de ações ilegais ou inadequadas nos 95.548 policiais militares que participaram, neste ano, das operações de policiamento ao redor dos pancadões para mitigar a forte presença de infratores da lei nesses locais, onde foram presos 1.563 criminosos e apreendidos 1.778 kg de drogas variadas.

Não se questiona a omissão das prefeituras na regulação dessas ocupações do espaço público, nem a responsabilidade dos organizadores desses eventos sem estrutura de salubridade e segurança. E foram esquecidos os delinquentes que atiraram sobre os policiais e provocaram o estouro da multidão.

Em 1998, o sofrido bairro do Capão Redondo, na zona sul da capital, registrou 195 homicídios. Vinte anos depois ocorreram 20 mortes criminosas, apesar do crescimento de 80 mil moradores. Na zona leste, o bairro popular de Cidade Tiradentes registrou 124 assassinatos —que caíram para 11 no ano passado, mesmo com mais 60 mil habitantes. A redução das mortes por 100 mil habitantes foi, respectivamente, de 92,2% e 93,4%.

Jovens, pretos e pobres deixaram de morrer e começaram a viver em bairros com padrões de homicídios de cidades norte-americanas. Podem culpar a polícia, ou os membros da “capitania do mato chamada PM” que deveriam ser civilizados, segundo Sérgio Rodrigues em coluna publicada nesta Folha.

São Paulo tem uma das mais notáveis reduções de homicídios do mundo: 81% nos últimos 20 anos. Roubos de veículos caíram 41% nesse período, e a população paulista deve isso, principalmente, à competência de sua Polícia Militar.

Claro, sempre tem gente achando que esses resultados se deveram a uma facção criminosa, num arranjo dos absurdos: a polícia é bandida, e os bandidos são os mocinhos.

José Vicente da Silva Filho

Coronel reformado da Polícia Militar de São Paulo, ex-secretário nacional de Segurança Pública (governo FHC) e consultor do Banco Mundial; é mestre em psicologia social pela USP

TENDÊNCIAS / DEBATES

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.