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Ana Cristina Barros e Braulio Dias

As dimensões da conservação no Amazonas

Mais áreas protegidas abrem novas oportunidades

Ana Cristina Barros Braulio Dias

O Amazonas tem 1,57 milhão de km2, é um estado com dimensão de um país. Sua área geográfica o coloca entre os 20 maiores do planeta. Na América Latina, só é menor que Brasil, Argentina e México. Sua grandeza florestal também impressiona.

O Amazonas conserva, hoje, praticamente 38% da Amazônia brasileira, com 97% de cobertura vegetal nativa! Dessa área, 57% estão protegidos em unidades de conservação e terras indígenas. O restante, se fosse desmatado, emitiria cerca de 37 bilhões de toneladas de CO2, semelhante a 30 anos de emissões em todo o território nacional pelo uso da terra e desmatamento, entre 1990 e 2010.

Queimada em Novo Airão, na região metropolitana de Manaus - Márcio Melo - 30.ago.19/Folhapress

Essas estatísticas são expressivas e desafiam conceitos globais de conservação. As metas da Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB) da ONU são de ao menos 17% para ecossistemas terrestres e 10% para marinhos. O Brasil, por meio da Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio), em 2013, assumiu a meta de 30% para conservação na Amazônia. Edward Wilson, um dos mais importantes biólogos do mundo moderno, defende uma proposta mais ousada: a conservação de 50% de cada sistema ecológico do planeta. 

Os cientistas do clima que trabalham na Amazônia alertam para a urgência de evitar a quebra do ciclo de troca de água entre a floresta e a atmosfera, que levaria a um colapso progressivo e irreversível: menos floresta, menos evapotranspiração, menos chuva, mais fogo, menos floresta... Para eles, de 70% a 80% da área original da Amazônia têm que ser mantida —e já estamos próximos de romper este limite.

Nesta primeira quinzena de dezembro aconteceu em Madri a 25ª Conferência das Partes (COP) da Convenção de Clima em busca de acordos para lidar com as mudanças climáticas. Já a CDB vai se reunir em outubro de 2020, na China. Em ambos os fóruns, países e estados são convidados a oferecer metas voluntárias para garantir a estabilidade da vida na Terra. A Amazônia é peça importante nessas negociações, e os governos estaduais têm muito a oferecer.

O Amazonas tem em curso um programa de gestão de áreas protegidas sob o paradigma do desenvolvimento sustentável. O estado vem continuamente adotando componente socioeconômico de atendimento à sua população associado às ações conservação. Programas como o Bolsa Floresta tem mais de uma década. Atendimento público à saúde, à educação e ao saneamento e promoção de atividades econômicas geradoras de renda local com base na floresta têm resultados expressivos.

São ações de governo que têm nas unidades de conservação âncoras de atuação e cujos resultados transcendem seus limites. As florestas preservadas no Amazonas ajudam a garantir água para agricultura, hidrelétricas e grandes cidades do centro-sul do Brasil, através dos “rios voadores”. O carbono estocado ali regula o clima global.

Por isso, um estado com tantas áreas já conservadas tem na criação de novas áreas de conservação sua melhor oportunidade de geração de benefícios múltiplos: assegurar seu patrimônio, atender a população numa gestão interiorizada, desenvolver-se economicamente com base na floresta e canalizar o pagamento por serviços ambientais providos ao país e ao mundo. O Amazonas pode consolidar globalmente uma visão modernizada da conservação, integrada em várias dimensões e pautada pelo local e pelo global, pela conservação e pelo desenvolvimento sustentável.

As oportunidades estão postas. As negociações internacionais da Agenda 2030 com os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, do clima e da Biodiversidade aguardam compromissos das partes interessadas. 

Nacionalmente está consolidado o entendimento de que beneficiários das florestas do Amazonas, como São Paulo e o agronegócio, têm a sua “conta a pagar”. Poderiam fazê-lo apoiando o governo do Amazonas na conservação da maior parte das suas florestas públicas ainda não protegidas por unidades de conservação e terras indígenas, cerca de 60 milhões de hectares. 

Juntos, indicariam ao mundo que na Amazônia há um caminho que concilia natureza, direitos humanos e bom ambiente de negócios. O que todo mundo quer pode ser realizado aqui.

Ana Cristina Barros

Membro do Comitê de Sustentabilidade da JBS e do Comitê Independente de Assessoramento Extraordinário para Reparação de Brumadinho, da Vale; consultora da Fundação Amazonas Sustentável (FAS) e colaboradora do Climate Policy Initiative (CPI-PUC Rio)

Braulio Dias

Professor de ecologia da UnB, ex-secretário-executivo da Convenção da ONU sobre Diversidade Biológica e membro dos comitês de aconselhamento da Fundação Amazonas Sustentável e do Future Earth, programa global de pesquisa sobre sustentabilidade

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