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Flavio Comim

IDH: sem solução para nosso problema civilizatório?

Olhar para as desigualdades pode ser um começo

Esqueça a posição 79o do Brasil no IDH (Índice de Desenvolvimento Humano). O número mais importante deste ano é a perda de 23 posições do país no ranking do IDH quando as médias são corrigidas pelo grau de desigualdade nas diferentes dimensões do desenvolvimento humano.

A má distribuição da renda ocasiona 36,7% dessa perda. Mas não é o fator que explica a mudança no ranking. O que mudou neste ano foi a piora da distribuição na educação, que foi de 22% no ano passado para 23,8%. Esqueça a posição geral do Brasil no ranking do IDH; olhe o que está acontecendo com a distribuição da educação no Brasil, entre regiões, entre escolas públicas e privadas, entre os que podem estudar e os que não. Mas o crescimento econômico não poderia corrigir isso?

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Favela em Guarulhos, segunda maior cidade do estado de São Paulo e uma das piores em saneamento - Zanone Fraissat - 23.set.19/Folhapress

Não; esqueça. O crescimento econômico não vai resolver sozinho o problema da educação ou da pobreza no Brasil. Em um país onde o 1% mais rico ganha 28,3% da renda nacional e os 10% mais ricos tem 42%, não há como o crescimento econômico ser um efetivo instrumento de transformação social.

Similarmente, em um país onde a renda nacional dos homens é 71% mais alta do que a das mulheres, é bem mais difícil para elas usufruírem dos benefícios do crescimento econômico. Esqueça o crescimento econômico. Mas não se poderia resolver esses problemas através de uma melhoria da distribuição de renda?

Não; esqueça também que a distribuição vai melhorar, pois só piora. Medindo por onde seja há uma piora na distribuição de renda, que está levando os pobres a níveis indescritíveis de indignidade humana e empobrecendo a classe média mais rapidamente do que esta pensa.

De fato, o índice de Palma, que mede a razão entre a renda dos 10% mais ricos e a dos 40% mais pobres, aumentou de 3,5 para quase 4 vezes neste último ano. Além disso, o índice de Gini, que é sensível a variações no meio da distribuição de renda, sinaliza uma piora de 51,3 para 53,5 em apenas um ano. Isso significa que a classe média está sendo apertada. A distribuição de renda não vai melhorar por passe de mágica; olhe para os impactos perversos da polarização econômica na nossa democracia.

Mas a política não poderia resolver isso?

Não; esqueça que a política nacional é solução para algo. A política segue a reboque de assimetrias de poder encravadas em uma estrutura econômica fortemente excludente, que alimentam interesses próprios e fantasias de mudança social como estratégia de manutenção do poder.

Às vésperas de transformações tecnológicas que irão mudar o panorama do emprego no mundo, o que faz o Brasil? Intensifica o seu modelo excludente. Esqueça que a política nacional é solução para a economia ou para a sociedade.

Parece que não há como fugir: precisamos, cada um a seu jeito, encarar de frente que não há solução óbvia para nosso problema civilizatório. Olhar para nossas desigualdades pode ser, contudo, um começo.

Flavio Comim

Professor da Universidade Ramon Llull (Espanha) e da Universidade de Cambridge (Inglaterra), é ex-economista sênior do Pnud (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento)

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