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Teixeira Coelho

Inteligência humana: tão artificial quanto a outra

Como condenar o passado sob as normas de hoje?

Agora parece ser a vez de Paul Gauguin. A National Gallery de Londres abriu uma mostra dele, e um audioguia do museu pergunta aos visitantes se “será hora de deixar Gauguin de lado de vez?”. Por quê? Porque nos trópicos Gauguin teve amantes menores de idade —indício, não?, de que se aproveitou de sua “posição de poder” (qual, à época?) para ter o sexo que quisesse.

Pior: Gauguin usava as palavras “selvagem” e “bárbaro” nos títulos de suas telas e escritos. Seria, pois, hora de cancelar Gauguin, assim como se cancela a assinatura de um jornal com ideias diferentes das nossas e como Stalin mandava cancelar, de fotos oficiais, a imagem de ex-aliados caídos em desgraça. Era a cultura do cancelamento, antes como agora. 

A atriz francesa Charlotte Gainsbourg, que recentemente fez críticas ao "politicamente correto" dos tempos atuais em entrevista ao jornal britânico The Guardian - Alberto Pizzoli - 7.fev.18/AFP

Não demora e alguém vai mandar cancelar “O Pensamento Selvagem”, de Lévi-Strauss. Sem ter lido o livro (detalhe menor...) e sem saber que o “selvagem” do autor é apenas a mente não adestrada comparada com a mente formatada de todo mundo hoje. Os novos inquisidores vão querer cancelar a palavra, o livro e o seu autor. 

Junto com Lévi-Strauss cairão os filósofos da era de Platão que, claro, aproveitavam-se de suas “posições de poder” para ter sexo com jovens de qualquer inclinação. 

A inconformada atriz Charlotte Gainsbourg, filha de pais inconformados, tem razão: o mundo ficou chato demais com todo esse politicamente correto —que, por vezes, não é só vício localizado do pensamento, mas crescente anacronismo ignorante que consiste em justapor ideias, fatos e costumes de épocas diferentes sem considerar o contexto de cada uma. O que hoje pode chocar, antes foi comum: como condenar o passado que não vivia sob as normas de hoje?

A juvenil pergunta do audioguia do National Gallery mostra, de novo e já à exaustão, como a inteligência humana, mesmo sem o auxílio de computadores e algoritmos, virou artificial —no sentido de gerar-se à distância de seu objeto de atenção e de modo pervertido. O sentido mais distorcido de artificial, o de fake, cabe aqui. Rosa artificial é rosa fake, inteligência humana artificial é inteligência fake.

Todos se preocupam, hoje, com os vieses da Inteligência Artificial (IA). O Google tem uma nova ferramenta de IA chamada Bert, que aprende o modo como as pessoas escrevem e falam. Seu trabalho é “ler” milhões de livros e wikipedias (“machine learning”) de modo a “comportar-se” como os humanos.

Problema: fazendo isso, Bert está incorporando os vieses humanos. Exemplo: toda vez que o nome Trump aparece, Bert associa-o a algo negativo. Ué, o que há de errado nisso? Brincadeiras (sérias) à parte: todos os vieses humanos, que estão nos textos humanos, estarão na IA de Bert —e Bert não saberá distinguir. 
Mas os humanos sabem? Bert somos nós, Bert é nossa voz.

Inteligência artificial, ética artificial, corpos artificiais, ideias artificiais. Nem é preciso um computador. Até país subdesenvolvido pode ter uma. Bravo, mundo novo!

Teixeira Coelho

Coordenador do grupo de estudos em Culturas e Humanidades Computacionais do Instituto de Estudos Avançados da USP; é autor, entre outros, de 'A Cultura e seu Contrário' (ed. Iluminuras)

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