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Gilson Rodrigues

Mortes escancaram preconceito e culpabilização da vítima

Paraisópolis está em luto, assim como todas as periferias brasileiras

​A morte dos 9 jovens e os 12 feridos na madrugada do último domingo (1º), devido a uma ação policial em Paraisópolis, na zona sul de São Paulo, denunciam um problema em inúmeras esferas —mas, especialmente, o extermínio de jovens pobres, negros e das periferias, além da ausência de direitos humanos básicos.

Os problemas são muitos. O reflexo disso foi o que aconteceu. Mais uma vez, policiais agiram legitimados pela narrativa do combate à criminalidade e, certamente, motivados pelo discurso de governantes que vociferam no país discursos, atos e medidas de uma política de violência extrema.

 
Gilson Rodrigues - líder comunitário de Paraisópolis
O líder comunitário Gilson Rodrigues, presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis - Oswaldo Corneti

Problemas sociais se resolvem com ações sociais, e por isso nossa luta é diária. Brigamos por saneamento básico —famílias da região do córrego do Antonico aguardam atendimento há anos. No campo da saúde, até hoje a comunidade não possui hospital, e os moradores não têm acesso a tratamento digno. No quesito moradia, mais de 5.000 famílias encontram-se em situação de aluguel social e sem previsão de habitação definitiva; já outras não possuem sequer esse direito assegurado.

Nos últimos anos, a União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis desenvolveu uma série de projetos para tentar melhorar a vida no bairro, como um banco comunitário, restaurantes populares, escolas de balé e música para crianças. Mas ainda falta muito, sobretudo vontade política.

O crescimento dos pancadões é também reflexo da ausência de investimento em equipamentos públicos voltados aos jovens da periferia, pois não existem outras oportunidades de cultura ou lazer. O parque Paraisópolis continua no papel 11 anos após sua criação oficial, e não temos clubes, praças, teatros ou cinemas. Infelizmente, esta não é apenas realidade de Paraisópolis, mas sim, das periferias de todo o Brasil.

O "Baile da Dz7" reúne milhares de pessoas em busca de diversão acessível em uma comunidade que possui mais de 100 mil habitantes. No entanto, em vez de o Estado proporcionar estruturas de lazer aos jovens, ele reprime por meio da polícia, que interrompe os eventos com bombas e tiros, ferindo inocentes. De acordo com dados da própria polícia, somente em 2019, houve 45 ações de repressão ao "Baile da Dz7".


Em uma dessas ações, jovens foram encurralados em vielas e levados à morte. Era uma tragédia anunciada, pois aqui, diferentemente do que acontece em festas em bairros nobres da capital, quem deveria proteger está gerando mais violência.

Naquelas ruelas ficaram a vida de nove pessoas entre 14 e 22 anos devido a uma ação truculenta e desproporcional —similar a centenas de outras que todos os dias vitimam novos inocentes nas periferias do país.

Não podemos deixar que mortes de jovens pobres e negros sejam banalizadas e justificadas pelo Estado como ações de combate ao crime. Não podemos deixar que a violência, especialmente a policial, seja normatizada. Não podemos deixar que tratem essas nove mortes como um efeito colateral. E não podemos, sobretudo, deixar de nos chocar com a morte de inocentes. Ou perderemos nossa humanidade.

A favela resiste. Não esqueceremos:

  • Bruno Gabriel dos Santos,  22
  • Denys Henrique Quirino da Silva, 16
  • Dennys Guilherme dos Santos Franca, 16
  • Eduardo da Silva, 21
  • Gabriel Rogério de Moraes,  20
  • Gustavo Cruz Xavier, 14
  • Luara Victoria Oliveira, 18
  • Marcos Paulo Oliveira dos Santos, 16
  • Mateus dos Santos Costa, 23
Gilson Rodrigues

Líder comunitário e presidente da União de Moradores e Comerciantes de Paraisópolis

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