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João Camilo Pires de Campos

Polícia para quem precisa

Generalização é injusta contra policiais de coragem

Imagine um estado sem polícia. O primeiro reflexo será um toque de recolher espontâneo das pessoas, que, assustadas, se enclausuram para evitar a violência das ruas. Nos centros urbanos, a falta do patrulhamento ostensivo abre espaço para os roubos, furtos e saques a lojas. Não há repressão, e os ladrões, mesmo os de ocasião, se refestelam com o que há à disposição. Não há investigação, perícia, uso de tecnologia e da ciência para identificar culpados.

Mais mulheres são violentadas, espancadas, humilhadas. Mas não têm para onde correr, a quem pedir proteção. Os estupros de crianças e adolescentes crescem, sob o manto da impunidade garantida.

O secretário da Segurança Pública de São Paulo, general João Camilo Pires de Campos - Mathilde Missioneiro - 14.ago.19/Folhapress

Não há quem negocie com sequestradores, e famílias de todas as classes sociais veem o crime tomando-lhe parentes em troca de resgates, nem sempre com finais felizes. Os espetáculos e partidas de futebol são suspensos, pois não há estrutura capaz de dar segurança às pessoas nas grandes aglomerações. 

Sem os batalhões de trânsito, as ruas ficam caóticas, sem regras. Sem os helicópteros, além de o crime continuar a todo vapor, pessoas deixam de ser resgatadas em grandes acidentes e morrem nas cidades e estradas paulistas. Órgãos que poderiam salvar transplantados não são conduzidos. Mais mortes.

As drogas correm soltas, pois não há mais apreensões e investigação. A inteligência a serviço do combate aos entorpecentes não existe mais. Menores são aliciados para o tráfico e para a prostituição.

Nas matas e selvas, a caça ilegal vira passatempo. Animais são abatidos, áreas verdes desmatadas e invadidas. Nas cidades e nos campos, pessoas presas às ferragens de acidentes ou encurraladas em prédios pegando fogo lembram-se com saudades e desesperança da época em que podiam contar com o Corpo de Bombeiros. Autores de ficção poderiam dar tintas a mais inúmeros parágrafos, com outras cenas desse conto sem sentido.

O triste e lamentável episódio de Paraisópolis nos deve remeter a algumas reflexões, pois nove vidas perdidas não podem de forma alguma serem relativizadas. Nenhuma reflexão, no entanto, deveria ser acerca da necessidade ou da importância da polícia. Nossas três forças policiais, a Polícia Militar, a Polícia Civil e a Polícia Técnico-Científica, são instituições sólidas e patrimônio de cada cidadão paulista. Temos, sim, a melhor polícia do Brasil.

Os investimentos realizados e a valorização dos policiais conduzidos neste ano pelo governador João Doria (PSDB) têm sido determinantes para o enfrentamento ao crime com resultados expressivos. Só no caso da PM, de janeiro a outubro deste ano, os 86 mil homens e mulheres da corporação realizaram mais de 28 milhões de atendimentos, apreenderam 120 toneladas de drogas, recuperaram 8.000 armas e tiraram das ruas 137 mil bandidos. O 190, telefone de emergência da PM, atendeu a 18 milhões de chamados (são 80 mil por dia, com 19 mil viaturas deslocadas para atender o cidadão).

Apesar de todo o cuidado na seleção, treinamento e motivação de nossos policiais, infelizmente há quem não honre nossa tradicional farda cinza bandeirante. Mas, para isso, existe o rigor dos próprios batalhões, do comando, da Secretaria da Segurança, da Corregedoria e da Justiça. Na PM de São Paulo, não se passa a mão na cabeça de quem erra. De 2000 a 2019, mais de 6.000 policiais foram demitidos por delitos dos menores aos mais graves. 

A Polícia Militar, próxima do segundo centenário —completa neste domingo (15) 188 anos—, jamais compactuou e jamais compactuará com desvios de conduta. A polícia é a grande muralha entre a sociedade e o crime e tem que ser fortalecida.

Devemos, no entanto, ter muito cuidado para não apressar de forma irresponsável conclusões acerca do episódio de Paraisópolis com base em especulações. É fundamental aguardar o resultado das investigações antes de condenar qualquer pessoa, policial ou não.

Por que escrevo isso? Pela injustiça que vejo praticada por conta da generalização contra homens e mulheres de coragem, que se dedicam a nos proteger, nos salvar e até morrer pelos nossos filhos. E que, independentemente de quantas críticas ou injustiças que se possam cometer contra eles, de quantas vezes forem repudiados ou feridos na alma, se ligarmos 190, eles sempre virão.

João Camilo Pires de Campos

General de Exército, é secretário da Segurança Pública do estado de São Paulo

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