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Clarissa De Franco

Porque 'Las Tesis' ecoa pelo mundo

Performance de mulheres chilenas ganha dimensão inflamada

Sibila Sotomayor, Dafne Valdés, Paula Cometa Stange e Lea Cáceres. Quem ainda não ouviu falar desses nomes provavelmente vai reconhecer essas mulheres por seus atos recentes na história. As quatro artistas chilenas, das áreas de desenho, moda e teatro, organizaram-se há pouco mais de um ano para performar as principais teses feministas.

Começaram em pequenas reuniões e eventos com atuações de 15 minutos. Ganharam o mundo. O grupo "Las Tesis, Colectivo Interdisciplinario de Mujeres" canta, dança, encena e proclama —em performances curtas, mas contundentes— o que propuseram autoras feministas consagradas, como Silvia Federici, Rita Segato e outras.

Clarissa De Franco - Psicóloga e doutora em ciência das religiões com pós-doutorado em estudos de gênero
A psicóloga e especialista em estudos de gênero Clarissa De Franco - Divulgação

Sua atuação em 25 de novembro, em Santiago, chamada Un violador en tu camino, com frases como “o Estado opressivo é um estuprador”, ganhou as ruas de França, Espanha, México, Colômbia, Argentina, Estados Unidos, Turquia, Alemanha e Brasil, deflagrando um aspecto absolutamente sombrio da sociedade chilena, que tomou proporções assustadoras desde que eclodiu a crise política e social no país.

O Instituto Nacional de Direitos Humanos do Chile divulgou que durante as seis primeiras semanas de protesto foram registradas 93 denúncias de abuso sexual sofridas por mulheres por atos de policiais e agentes de segurança do Estado chileno.

O Chile realmente não está para brincadeira. Até poucos meses vendia-se como “o país modelo da América Latina”, e só diante de muita performance o mundo tem despertado para a realidade desigual e bruta que corria debaixo do sistema oficial.

Com os olhos vendados, mulheres participam em Amsterdã de performance inspirada no grupo feminista chileno "Las Tesis"; o protesto é contra a violência de gênero e o patriarcado - 1º. dez.2019/AFP

Outros sinais já tinham sido esfregados em nossas caras: o pedido de demissão coletiva de 34 bispos, no início de 2018, em função de denúncias de abuso sexual no interior da Igreja Católica escancarava a hipocrisia da moral vigente no Chile, um país fortemente religioso. As instituições Estado e Igreja têm acobertado mutuamente suas violências de variados tipos, e as de gênero encabeçam essa lista.

A reverberação rápida e global da dança coletiva de mulheres entoando que "o patriarcado é um juiz que nos julga por nascer, e nosso castigo é a violência que não se vê" (...) São os policiais, os juízes, o Estado, o presidente. O Estado opressivo é um estuprador. E a culpa não era minha, nem onde eu estava ou como me vestia. O estuprador era você" só ganhou essa dimensão inflamada porque, infelizmente, o problema não está no Chile, na na América do Sul ou em qualquer continente localizado.

O problema está nas relações, na história social da humanidade que estabelece bases de poder por meio de instituições e sistemas. Não é por acaso que Silvia Federici, Nancy Fraser e outras grandes feministas deflagraram o óbvio: o capitalismo é a terra fértil para as opressões do patriarcado, porque justifica a exploração e a desigualdade a partir de narrativas perversas que envolvem a produção, o trabalho e o lucro, como a fala de que as mulheres devem ganhar menos porque perdem tempo produtivo laboral cuidando de seus filhos e filhas.

Pode ser mais sutil que isso muitas vezes, mas as narrativas são similares. E parece que até já escutamos um presidente latino-americano falar algo assim; sei lá, só parece. No momento, parafraseando Caetano e Gil à moda de 2019, eu diria que, para o bem e para o mal, “o Chile é aqui, o Chile não é aqui”.

Clarissa De Franco

Psicóloga e doutora em ciência das religiões com pós-doutorado em estudos de gênero

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