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Marco Antonio Sabino

Transparência não é virtude

Informar corretamente o estado de saúde de Bruno Covas é obrigação

Marco Antonio Sabino

Era um domingo, e eu estava fora da cidade. No meu celular, deixado de canto por alguns minutos, mais de dez chamadas não atendidas. Entre elas, a do médico David Uip. Foi para quem retornei primeiro. “Sabino, acho que você deveria voltar para São Paulo imediatamente”, disse ele.

Uma hora depois cheguei ao Hospital Sírio-Libanês, onde o prefeito Bruno Covas (PSDB) estava internado para cuidar de uma erisipela e uma trombose. Em poucos minutos, a decisão estava tomada: divulgar em detalhes, ainda naquela noite de domingo (27 de outubro), todas as informações disponíveis sobre o diagnóstico de câncer do prefeito. O próprio Bruno Covas havia decidido, em consonância com o que sempre tinha me orientado: transparência total na comunicação. “Não temos nada para esconder”, repetia para mim.

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas
O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB) - Reprodução - 12.dez.19/Instagram

Na atividade pública, transparência não é virtude, mas obrigação. Quando você trabalha para a população e tem seu salário pago por ela, é fundamental prestar contas e dar todas as informações de forma ágil, correta e transparente.

Esse discurso hoje pode parecer óbvio, mas a história recente do Brasil mostra que, muitas vezes, o cidadão é o último a saber. Foi assim no episódio da doença do presidente eleito Tancredo Neves, em 1985, e no massacre de 111 presos no Carandiru, em 1992, só para ficar em dois exemplos. Se a verdade é a primeira vítima de uma guerra, o poder público não deve participar desse tiroteio.

Depois de um ano à frente da Secretaria Especial de Comunicação da Prefeitura de São Paulo, saio satisfeito ao constatar que nunca entramos nesse campo de batalha. Foi assim na queda do viaduto na marginal Pinheiros, na reforma da Previdência municipal ou nas enchentes de verão.

Também na doença do prefeito Bruno Covas procuramos sempre a informação mais útil, direta, precisa e honesta para transmitir ao público, com coletivas da equipe médica, boletins do hospital, entrevistas do paciente, fotos, vídeos e mensagens nas redes sociais. Divulgamos todas as notícias importantes sobre a saúde e o tratamento indicado. Nesse período, nenhum boato sobre o assunto ganhou espaço na blogosfera ou nas ruas. Em tempos de informações falsas e viralizadas, a comunicação proativa e transparente acabou sendo o melhor antídoto contra as fake news.

Assim também aconteceu nas campanhas publicitárias, que tiveram sempre como objetivo informar, orientar e educar a população. Seja para incentivar que o lixo seja jogado no lixo, advertir os jovens para os riscos da bebida ao volante ou sensibilizar as pessoas na ajuda aos moradores de rua durante o inverno, todas as nossas mensagens eram corajosas: expunham um problema e propunham uma solução, sempre com o caráter educativo e de utilidade pública. O mesmo valeu para nossas estratégias de comunicação online, que levaram, em poucos meses, São Paulo a ser a cidade mais relevante do Brasil no Twitter. Isso também é transparência.

Não se trata aqui de louvar tal atitude porque, como já dissemos antes, esta deveria ser uma obrigação de qualquer governo. A questão é mostrar que a comunicação pública pode e deve buscar a relação mais próxima e honesta com o cidadão. Por mais negativa ou sensível que seja a informação, a população tem o direito de saber rapidamente e da forma mais exata. Por mais incômodo que seja o assunto, o cidadão precisa ser informado e orientado.

Afinal, o contribuinte é o cliente da máquina pública, mas também o seu patrão. Ele paga caro pelos impostos, que sustentam toda essa estrutura e tem o direito de receber uma informação de qualidade. Em uma sociedade cada vez mais complexa e digital, onde cada portador de celular ou notebook é um comunicador, não faz nenhum sentido disfarçar, minimizar ou iludir o consumidor de qualquer notícia.

Mário Covas costumava dizer que a popularidade é tentadora, mas efêmera; já a credibilidade dá trabalho, desanima, mas dura muito mais. Ao me despedir da Secretaria de Comunicação, saio com a satisfação do dever cumprido e a consciência de que valeu a pena.

Governos e pessoas vêm e vão, mas os princípios, os valores e os exemplos sempre ficam para as gerações futuras. E quem sabe um dia não precisemos mais de tantas linhas como essas para defender a transparência da informação como um direito básico do público e uma obrigação de qualquer governo.

Marco Antonio Sabino

Jornalista, advogado e ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de São Paulo (gestão Bruno Covas)

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