Descrição de chapéu
Fernando Lottenberg

75 anos depois de Auschwitz

Comunidade judaica é diversa, inclusive na política

O mundo vive uma onda antissemita sem precedentes desde o Holocausto —o genocídio de 6 milhões de judeus— promovido pelos nazistas em plena Europa do século 20.

Os registros de ataques contra comunidades judaicas crescem exponencialmente neste século 21. Nos Estados Unidos e na Europa, seus membros mudam suas rotinas e temem sair às ruas com símbolos visíveis, como a kipá ou a estrela de David, após sucessivos ataques, muitos deles mortais e ainda impunes. No Oriente Médio, o Irã reitera constantemente sua intenção de destruir Israel, que, há 71 anos, vive sob ameaças de seus vizinhos e de militantes cegos pelo ódio antissionista.

O presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil), Fernando Lottenberg, na cerimônia em homenagem ao rabino Henry Sobel, em São Paulo - Zanone Fraissat - 4.dez.19/Folhapress

No Brasil, felizmente, o antissemitismo tem sido menos intenso e violento. Mas, nesta era de extremos e extremistas, agrupados e empoderados pelas redes sociais, começam a aparecer, também por aqui, sinais preocupantes.

Quando um secretário da Cultura acredita que pode emular o ministro da Propaganda e Cultura de Hitler, a sociedade precisa se mobilizar e se unir para que horrores do passado não voltem a ameaçar nossa humanidade comum. Foi o que aconteceu na semana passada. A reação foi rápida e vigorosa.

Mas a história não acaba aí. Após a sua exoneração, voltaram a aparecer nas redes falsos relatos, segundo os quais a comunidade judaica teria apoiado a eleição de Jair Bolsonaro, e agora, portanto, não deveria reclamar por ter de lidar com um secretário da Cultura nazista.

Ora, se há uma coisa que se pode dizer sobre os judeus é que somos um povo que há séculos cultiva a diversidade de opiniões. Há poucos levantamentos que apontem como os judeus votaram nas últimas eleições. Os que estão disponíveis indicam números semelhantes aos resultados gerais, provavelmente mais em linha com sua condição socioeconômica do que com sua condição judaica. Quem afirma diferente disso não pode provar. A representação da comunidade, apartidária, não endossou candidaturas.

E essa diversidade tem sido justamente nossa força, ao longo do tempo. A história mostra claramente como extremismos, à direita e à esquerda, geralmente começam —ou terminam— em ataques contra judeus. A esquerda nos acusa de estar com a direita, enquanto a direita nos acusa de estar com a esquerda.

Mas não é difícil ver como tem havido integrantes de nossa comunidade em praticamente todos os partidos brasileiros, assim como em vários dos governos recentes. Querer colocar os judeus em um lado dessa —ou de qualquer disputa política— é não apenas um equívoco, mas também um perigo, na medida em que nos torna alvos de ataques de grupos contrários.

O que nos permitiu sobreviver a esses séculos de preconceitos foi a constante busca do conhecimento e um forte sentimento comunitário. É essa a nossa contribuição, é esse o nosso legado —a necessidade de se educar e de praticar a solidariedade em meio a condições tantas vezes terríveis.

E, se somos diversos e plurais, não deixamos de ter lado. Nosso lado é o da democracia, da promoção dos direitos humanos e do respeito às minorias. O autoritarismo e o totalitarismo são os que trazem consigo os riscos das perseguições.

Na próxima segunda-feira (27), o mundo lembrará dos 75 anos da libertação do campo nazista de Auschwitz. Quanto mais distante, mais necessária se torna a memória dos horrores do Holocausto.

Neste momento, em homenagem a suas vítimas e aos sobreviventes, parte importante dessa missão é lembrar, gritar ao mundo que não serão toleradas atitudes como a do ex-secretário da Cultura e que o caminho da intolerância e do ódio só traz destruição, injustiça e sofrimento.

Fernando Lottenberg

Advogado, é presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil)

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